Fantasia
 
               Se eu pudesse te pedir perdão            
eu seria tua Polyanna,
eu e tu brincaríamos do jogo do contente
Se eu pudesse te dar um Universo novo
Eu seria o Pequeno Príncipe
E falaria de como cativar a rosa da esperança
Se eu pudesse vencer meus desafios
Seria Dom Quixote e enfrentaria moinhos de vento
 
Mas nada posso
Sou somente letra morta
e, enquanto fantasio
 a vida passa em desvario
E não mais sorrio...
 
Até quando??

 

 

Um homem

Eu conheci um homem que tinha sede de amar. E que viveu de amar e para amar. Amou todos os dias de sua vida.

            Eu conheci um homem que tinha alegria. Respirava alegria. Até quando chorava era de alegria.

            Eu conheci um homem que tinha a emoção na pele. Seu sorriso era emoção. Sua carne era emoção.

            Eu conheci um homem que era doação. Cada gesto era doação. Seu mundo era doação. Não sabia viver pra si. Só se doava. Mesmo só, se doava.

            Eu conheci um homem de muitos amigos. Caminhava em direção aos amigos. Vivia a amizade.

            Eu conheci um homem que era só sentimento. Em todo momento.

Tá morrendo sozinho. Sozinho e triste. Eu já não o reconheço em mim.

 

Fatos pontuais

 

Quando te falo de amor és reticências

Quando te olho, interrogação

Quando tu chegas, exclamação

Se te vais, ponto de partida

Se voltas, ponto continuando

Se és feliz, sou teu contraponto

Se triste, ponto parágrafo

Sem rumo, és pontos cardeais

Há hiatos em nossa luxúria

Ponto e vírgula em nossos sonhos

e parênteses em nossa alegria.

 

Na tua partida, sou ponto final.

 

 

           

Angústia de quem vive

 

Eu queria falar de amar

De amar e de amor

Queria falar de esperanças

Principalmente de sonhos

Queria sonhar

Só uma vez mais

Uma última vez

Só uma

Queria adormecer num colo e sonhar

não lembro da última vez que sonhei

não tenho colo pra adormecer

Eu queria sonhar. Pela última vez!

Eu queria re-sonhar meus sonhos

de encontrar um grande amor 

E morrer por esse amor

e com esse amor

Mas já nem sei o que é um amor

Eu queria afastar de mim essa dor

que me arranca a alma

me destrói em pedaços

que jamais poderei reconstituir

Eu queria fazer cessar essa angústia

que me diz que sou um fracassado

Que meu verso é lixo

e meus amores são farsas

Eu queria abrir a janela

e ver uma manhã de dezembro

chegando com luzes coloridas

Eu queria morrer numa manhã assim

De dezembro

Com luzes coloridas em minha volta

Mas não haverá mais dezembro

Nem vida em dezembro

Eu queria que essa idéia de morte morresse sem mim

Eu queria desatar esse nó da garganta

e parar de me desfazer em lágrimas

Meu Deus, onde perdi minha alegria de viver?

Onde sepultei minhas esperanças?

Quero reencontrar a minha paz

Como dói a solidão!

Como dói a falta de sonhos! 

               Hoje meu filho Adriano completa 15 anos. Peço desculpas aos amigos que aqui estão acostumados com outros tipos de texto que posto neste canto. Mas estes três, escritos por mim, pela minha mulher Neusa e por minha filha Rafaela, em homenagem ao Adriano, falam exatamente daquilo que falo todos os dias. Da felicidade de amar e ser amado. Participem de nossa felicidade.

 

         Regis Adriano Lima Marques - 15 anos

 

MEU AMOR MASCULINO

 

           

            Ele chegou num começo de tarde de uma segunda-feira ensolarada. Chegou falando alto e grosso, chamando a atenção de todos. Era grande e forte. Mas, como era bonito!

            E eu, que já sonhava com um amor assim há muitos anos, a Ele me entreguei como quem se entrega a um anjo. Seus olhos grandes e seus cabelos negros e fartos me seduziram. Ele fez de mim mais que um homem apaixonado por outro homem: fez de mim um ser que ama. E traduzir esse amor é impossível. E arte de Deus!

            Em algumas coisas ele se parece comigo. É tímido, introvertido. Até seu rosto lembra o meu. Suas fotos de quando era menino mostram como somos semelhantes. Seu timbre é forte e seu jeito é sedutor sem ser cafajeste, e seu porte agrada às meninas. Ama as mulheres sem ser volúvel. É elegante e gentil com elas e isso me deixa orgulhoso dele. Principalmente as que dividimos em nossa casa e, às vezes, os nossos carinhos.

            Em outras coisas ele é meu contraponto. O inverso de mim. Gosta de rock. Eu, de baladas. Mas nem por isso deixamos de dançarmos juntos. Ele adora balas e coca-cola. Eu odeio as duas. Mas lhe compro ambas só para ver seu deleite. Ele gosta de boates e luz. Eu gosto de um cantinho escuro em um barzinho à beira-mar. Ele prefere o basquete. Eu adoro futebol. Ele toca violão. Eu só ouço os acordes com emoção. Quando ele chora, sofro.

Ele é meu amor masculino. Quando entrou na minha vida colocou luz e poesia. Há quinze anos vive comigo. Eu o tomo pelas mãos e o beijo no rosto. Ele me toma a mão e me beija. E eu o abençôo. E peço a Deus que o abençoe.

Eu o amo. É meu filho caçula. Que hoje faz quinze anos. Não vou poder lhe dar a festa que sempre sonhou. Mas nossos corações estão em festa. O meu, pelo filho maravilhoso que é. O da mãe dele, Neusa, que o trata ainda como se fosse um bebê. A irmã mais velha, Rafaela é sua companheira inseparável. O amor deles é tão grande e recíproco que não dormem sem pedir bênção ao outro. O coração dele também está em festa pela certeza do nosso amor.

Feliz aniversário, meu amor masculino. Feliz aniversário, meu homem. SÊ FELIZ, FILHO! EU TE AMO. A GENTE TE AMA, ADRIANO.

 

                  (Escrito por Regis, o pai apaixonado)

 

ADRIANO

 

Hoje é seu aniversário. São 15 anos de existência que para mim se traduzem em felicidade por ser sua mãe.

            Esta é uma data daquelas que a gente espera com ansiedade, pois, sabemos que com ela virão muitos sonhos e encantamentos que tentamos tornar realidade em nossa caminhada.

            Meu filho, a partir de agora parece que tudo faz mais sentido e que somos capazes de intervir mais na construção do nosso “eu”, da nossa felicidade – e é verdade. Você, agora com 15 anos, terá mais consciência desse papel, e vai buscar valorizar e viver mais os princípios que lhe passamos, por exemplo: o respeito pelo próximo, a amizade, a lealdade, a fidelidade, amor aos estudos e à liberdade. Enfim, tudo que possa contribuir para que você se torne cada vez mais essa pessoa maravilhosa que você é. Eu acredito em você, em sua capacidade.

            Neste momento tão significativo eu não posso estar com você. Mas, apenas fisicamente. Estou presente em oração, pedindo ao nosso Deus pela sua felicidade, para que você se torne um homem de fé, que tenha capacidade de acreditar não só naquilo que vê; que seja um bom cristão, capaz de amar e ajudar indiscriminadamente aos nossos irmãos em Cristo; que seja ponte que une e nunca muro que separa; que continue a ser esse nosso filho maravilhoso, meu doce companheiro; esse irmão lindo, amigo e cúmplice de Rafaela.

            Sei que não precisaria justificar aqui minha ausência, mas você sabe que ela se faz necessária e isso faz parte das responsabilidades que assumimos perante a Vida. No entanto, essa falta não diminui em nada o imenso amor que sinto por você. Saiba que, com sua irmã, são os motivos das minhas maiores buscas, são as respostas aos meus sem-número de questionamentos existenciais.

            Para finalizar, que Deus todo poderoso aqui presente te cubra de todas as bênçãos. E mesmo que ninguém aqui entenda esse jargão tão exclusivamente nosso, quero repetir o que voe já sabe: sou louca, apaixonada, desesperada por ti...

                                                                                              Te amo muito.

                                                                                                     Beijos, tua mãe.

                                                                                                          Neusa.

 

                                                                   (Escrito por Neusa, a mãe apaixonada)

PRESENTE DOS CÉUS

 

Ao meu irmão, meu amigo, meu companheiro e meu porto seguro, eu não conseguiria jamais dizer o quanto me é reconfortante saber que o encontro em casa todos os dias. Porque nesses 15 anos sempre me senti alguém realmente abençoada por ter nascido no mesmo universo que um dia ele viria iluminar com toda sua presença de espírito maravilhosa, com toda a sua graça inteligente e todo seu otimismo fortalecedor.

Por todas as vezes que nós discutimos – por causa de um favor, nossos gostos musicais diferentes e etc. – eu entendo que nos perdoamos mutuamente. Aliás, nem há o que perdoar: nossa sintonia é tanta que jamais nos ferimos a fundo. E eu sou até capaz de escutar rock com ele à vezes, e quando ele me pega cantando uma ou outra música do repertório de ‘metal melódico’ que ele me faz ouvir o tempo todo, ele sempre diz: ‘um dia tu ainda vira roqueira.’

E eu sei que ele não admite, mas curte comigo o cd dos Los Hermanos. E eu aviso que de parabéns estamos mais nós do que ele, porque temos esse presente dos céus em nossas vidas.                                                           

           (Escrito por Rafaela, a irmã presenteada)

 

(Em dose dupla, pra recuperar o tempo perdido)

Epitáfio

Não vivo em busca de emoções fortes
Não temo, sequer, pela minha sorte
Não volvo a nenhum dos meus degraus anteriores
Não desço sobre o arco-iris em busca de cores
Ergo-me! Quero o presente
quero-te presente
quero os presentes
Todos os que deixastes de entregar
Tua alma
sentimentos
belos momentos
Quero subir na lápide fria
do meu passado recente e escrever
com a brasa do meu coração
um epitáfio simbólico
"Aqui jaz"
Sem nomes, sem versos
sem datas extremas e sem lembranças.
Um pagão desconhecido
(Este texto foi publicado originalmente no blog 'Verso e Prosa Encadeados' que tenho a honra de partilhar, primeiro com o Luis Tarciso e Loba e, agora, também com a poeta Jeanete Ruaro. Peço desculpas a eles para atender a um pedido, e à Claudinha, Elise, Geórgia, Kyra, Sabrina e Loba, que me deram o prazer de seus comentários lá).

www.encadeado.blogspot.com

Ainda te amo

Hoje alguém sussurrou teu nome

e, meu coração, atento, ouviu

e sorriu!

despertou

se abriu

saiu

foi em busca de recordações

de nossos sonhos, nossas ilusões

esperanças, planos e enganos

 

Não bebi tua juventude

Mas saciei-me no ciúme juvenil

Sorvi tua voz suave

Amei o teu amor,

Hoje morro com tua dor

 

Estás em mim de tal forma incrustada

Que esfrego, sôfrego, minha pele rota

E sob cada camada encontro tatuada

teu nome e a palavra “amada”

 

Hoje disseram que ainda me amas

E meu coração perguntou triste:

Porque a gente resiste?

 

Emudeço.

Por quê?

 

 

Por cinco dias estive com meu blog bloqueado por razões que só a alta tecnologia pode explicar. Como não entendo nada disso, peço desculpas. E prometo que agora vai ser diferente. Nunca mais paro. Ou não devo dizer nunca?

Beijos e obrigado pelo imenso carinho que recebi de todos.

Deo corde

 

 

Meus medos

 

            Sempre fui movido por sentimentos. Primeiro foram os medos. Tive medo de escuro, de fofão e de ficar sozinho. Tive medo dos soldados da Ditadura, que chegavam para levar meu pai cada vez que eu voltava pra casa no fim de tarde dos meus dez anos. Tive medo de alma e de ladrão. Tive muitos medos.

            Não venci meus medos, mas me acostumei a eles e hoje sei conviver com alguns deles.

            Eu experimentei outros sentimentos. Perda, solidão, tristeza e renúncia fizeram par constante com meus sonhos. Experimentei amar aos 15 anos e amei de verdade aos 20. Amei com loucura por um mês um amor que cultivei por cinco anos à distância. Joguei tudo pra cima e amei. Intensamente. Plenamente. Como jamais voltei a amar e como sei que jamais voltarei a amar. Amei como poucos foram capazes de amar. E me perdi em sonhos.

            Ah!, os sonhos! Eu os experimentei todos. Neles corria na chuva de mãos dadas com ela. Tomava água de coco no mesmo canudinho e rolava na areia da praia nas madrugadas de São Luís.

            Hoje meus medos estão voltando. Tenho medo de sofrer quando meu outono chegar. Temo não viver mais um grande amor antes do meu ocaso. Mas não temo a morte. Nestes últimos dias, com meu blog travado, tive muito medo. De perder meus amigos. De me distanciar deles. Da Mari, Elise, Miss Borboletinha, Kyra, Reis, Cláudia, Maria Cláudia, Ricardo, Cuca, Rennê, Olga, Rô, Diana-Dru, Geórgia, Gabi, Jorge Neto, Ariane, Digressiva Maria, Aldinha, os meus três companheiros da deliciosa aventura do Encadeados  -,Tarciso, Jeanete e Loba, esta, também minha jardineira junto com a Alegria. Devo ter esquecido de alguém. Mas o medo de esquecer fez com que eu guardasse todos no coração.

            Tenho medo de ter medo por meus filhos. Medo de não fazê-los feliz. Tenho medo de minha família desmoronar e por isso tento uma, duas, cinco mil vezes nos manter unidos.

            Mas não tenho medo de enfrentar a Vida de frente. Aos 50 anos – quase 51 -, volto a me abrir pra vida. Pra minha poesia. E que elas entrem em mim como se fosse o sol desvirginando a madrugada, como disse Gonzaginha. Eu só não tenho medo de amar.

 

(Para minha amiga Ellis, quem primeiro me falou de medos e me segredou alguns deles. Beijo, fascinado, na tua alma minha amiga poeta.)  

 

O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada (do cancioneiro popular) 

 

 

Passarinha

 

Meus sonhos têm todos os matizes

Todas as matrizes

Todos os deslizes,

 

Qual a cor do amor-perfeito?

Será o verde da esperança

Ou o vermelho no leito?...

 

Quebro, pois, régua e compasso

enveredo pelo teu espaço

Em busca do teu regaço

 

E, na noite que se avizinha

Quero teu canto, passarinha

E, de manhã, me aninha

 

                                                                                                              

Não sou,

meu amor,

teu escravo!

Sou flor,

meu amor,

e não cravo!

                A Terra é azul! (Neil Armstrong, primeiro ser humano a pisar na Lua)

 

O mundo é azul?

 

Quero ficar no teu canto,

No teu encanto

No teu pranto

 

Talvez em chamas

Talvez em camas

Talvez sem dramas

 

Quero ficar no teu riso

Na tua pele lisa

Na tua brisa

 

Talvez sem paz

Talvez incapaz

Talvez mais

 

Quero voar nas tuas asas

Invadir a tua casa

Ficar em brasa

 

Talvez grito

Talvez agito

Um dia, infinito

 

Quero amar teu amor

Curar tua dor

Sentir teu sabor

 

Talvez flor

Talvez cor

Talvez amargor

 

Quero ver pelos teus olhos

 o mundo é azul?

                                                          Prevendo algum embaraço, disfarço ao entrar... se estou de volta, só vim me buscar (Bruno Batista, compositor e cantor maranhense, in Vazio)

 

 Sê feliz...

 

Hoje minha alegria voltou

bateu à porta, retornou

toc, toc... não abri

toc, toc... insisti

Era ela, que linda!,

E minha voz aqui presa

balbuciava surpresa

entre...sê bem-vinda!

 

Hoje a poesia voltou

Chegou tímida...chegou

Toc, toc...vim abrir

Toc, toc...vim sorrir

meu coração chorava ainda

sem razão de ter chorado

balbuciava emocionado

entre...sê bem-vinda!

 

Hoje eu retornei

em silêncio chorei

toc, toc... choro

toc, toc... imploro

e à minh’alma petiz

com trinco descerrado

balbucio, emocionado

saia... Sê feliz!

Eu tenho uma espécie de dever. De dever de sonhar sempre. Pois sendo mais que um espectador de mim mesmo, eu tenho que ter o maior espetáculo que posso (Fernando Pessoa, in Desassossego)

 

Cartas de Elise...

 

As cartas chegam assim

sem carteiro, sem campainha

não há sequer envelopes

trazem corações invisíveis

pintados com as cores da magia

emoções estampadas em cada linha

falam de sensualidade

sussurram eternidade

 

chegam e tocam como carícias

às vezes, em cascata,

outras, em avalanches

provocam suspiros

induzem sonhos

traduzem

 

mas há a marca da mulher na poeta

que deixa sinais

reinventa o êxtase

quebra limites

como deusa cria...

dom maior do ser humano

 

São cartas

Poesia em gotas

sonhos e prazeres de Elise

O amor é um grande laço, um passo pra uma armadilha. Um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha (Djavan)

 

Fechado para balanço

 

Não me dou o direito de ser hipócrita

Não desdigo minhas palavras

Não desminto meus versos

Não calo minha consciência

Não usufruo de minhas desditas

Não flutuo nas feridas

Não te uso

 

Só, plano. Soprano

 

Se teus versos são meus, envaideço

Se não são, não enlouqueço

Não quero aplausos

Eu não sou o espetáculo

Nem circo

 

Meu riso é exatamente isso: riso

Minha lágrima, lágrima de verdade

Não minto por mim. Nem pra ti

Não faço gestos inúteis

Não faço versos fúteis

 

Se sou, sou transparência

Se sexo, indecência

Se verbo, coerência

 

Não quero luzes, ribalta

Nem amores furtados

Nem palavras, nem posts

Não quero nada

Quero minha letra

Viva ou morta!

 

 

E a vida, ainda que tarde...

Nesta tarde...

Meu coração é mesmo sem juízo, não sabe que eu preciso deixar de gostar tanto assim. Meu coração, às vezes me entristece, meu coração parece que não gosta de mim (Moacyr Franco, in Coração Sem Juízo)

 

Eu e o Poeta

 

Há dois em mim

O poeta que eu recuso

E o homem recluso

O poeta é dúbio

O homem, esbulho

O poeta encanta

O homem se desencanta

 

E os papéis se invertem...

 

Quando te falo de amor,

sou eu sussurrando

às outras, sem dor

é o poeta enganando

A ti descrevo sonhos,

 - sou eu te amando

às outras, risonho,

é o poeta delirando

 

Somos dois, eu e o poeta

Ele diz mentiras

Eu omito verdades

 

Se calo,

é o homem que medra

Se falo,

é o poeta ventríloquo

 

Te vejo através das letras

bailando entre palavras

todos os matizes num só azul

 

É o homem, a se consumir

E a ti, que pareço?

homem ou poeta?

poeta ou homem?

Louco? Poeta?

 

Poeta louco?


Eu nunca toquei na vida. Nunca soube como se amava, apenas soube como se sonhava amar. (Fernando Pessoa)

 

Se...

 

Se eu tivesse uma manhã azul...

Se eu tivesse uma ilha dourada...

Se eu tivesse um bosque verde...

Se eu tivesse campos de girassóis  

Se eu tivesse um mar de rosas

Se eu tivesse sóis vermelhos

Tudo seria teu...

 

Se eu tivesse o teu sorriso

- Que Alegria! –

O mundo seria meu...

 


   

Hoje

 

Hoje, quando a noite chegar...

Vou esquecer de minhas medidas

- esquecer das dores sofridas

 

Hoje vou descer do pedestal

Deixar cair a máscara fria

- deixar sumir minha agonia

 

Hoje vou andar sobre o fio da navalha

Enfrentar todos os meus desafios

 - enfrentar meus desatinos

 

Hoje vou despir-me de meus sonhos

Quero-te, realidade, nua e crua

- quero-te, na realidade, nua

 

Vem comigo, meu pedaço de universo é no teu corpo (Tayguara, in Universo no teu Corpo)

 

Vício

(Regis Marques)

 

Não bebo,

mas fico embriagado,

Alcoólatra de teus líquidos,

Quando sorvo gotas de ti!

 

Não fumo,

Mas dependo de teus aromas

Nuvens de prazer etéreo

Quando aspiro tuas sensações

 

Não jogo,

Mas espreito, sob o veludo verde,

Ases, curingas e valetes

Invadindo teus sonhos embaralhados

 

Quedo, sem amparo,

Bêbado, drogado,

Com esse vício sem cura

Com esse amor sem remédio

Quando a gente tenta, de qualquer maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto, amordaçado, volta a incomodar. (Fagner, in Revelação)

 

Saudade viva

 

Minha vida! Oh, minha vida!

Quantas manhãs te sonhei...

Quantos poemas versei...

Quantos sonhos roubei...

Quantas noites chorei...

Quantas vezes te dei...

 

Tua vida! Ah, tua vida!

 Quantas tardes eu quis...

 Quantos caminhos refiz..

  Quantos sonhos desfiz...

Quanto mal eu te fiz...

Quanto amor infeliz...

 

Nossas vidas! Ah, nossas vidas!

Só restaram feridas

Chagas doloridas

Camas repartidas

Alegrias sumidas

Vidas...sem vida

    No teu corpo é que eu encontro, depois do amor, o descanso e essa paz infinita

(Roberto e Erasmo Carlos, in Seu Corpo)

 

Em outra pele

 

Não quero teus lindos versos...

- Quero teu anverso, o (re) verso!

Não quero textos

Quero-nos bissextos...

Não quero floreios...

- Quero flores!

Não quero dores...

- Quero cores!

Não quero sentimentos...

- Quero momentos!

Não quero a métrica...

- Quero-te elétrica!

Não quero a suavidade...

- Quero sua vaidade!

Não quero sons complexos...

- Quero amplexos!

Não quero tercetos, sonetos!

- Quero ter, só!

Não quero cantos...

- Quero encantos

Não quero emoções...

- Quero sensações!

Não quero tua poesia rítmica, compassada...

- Quero a disritmia dos gestos, apressados!

Não quero...

quero...só quero

Meu retrato ainda na parede meio amarelado pelo tempo, como a perguntar por onde andei (Roberto Carlos, in O Portão)

 

Lágrima

 

Vi sua lágrima,

...furtiva

pela porta entreaberta

chorei também

nunca a vi chorar antes

não por amor...

agora, antes de sair

chorou...

tantos anos juntos

tantas noites

tantas juras

tantas esperanças

e acaba assim...

com uma lágrima escondida

Não era a mesma mulher

aquela quase menina

com um corpo exuberante

que exalando desejos