Tempo de espera
A vida brinca comigo
sou seu joguete
ela, meu estilete
me lacera
A vida joga comigo
Sou sua peteca
Ela, minha raquete
Me bate
A vida é rude comigo
Sou mero espectador
Ela, o grande ator
Me ilude
A vida se esconde de mim
E esconde a dor em mim
Me absorve, me envolve
Me consome
some
Inda que a manhã não nasça azul
– e o azul sequer amanheça
mesmo que o cinzel inverta o traço
e trace um monstro
na obra-prima do artesão
que esculpi a teia de vidro
se o badalo torto toque só onze
das doze vezes à meia-noite
e o cântico do ângelus
silencie três vezes
na prece inaudível
que repreenda a fé do cético
Inda que nada aconteça
e nem amanheça
inda que nossos fantasmas
de vidro se estilhassem
contra as paredes de nossas vontades
inda se sons inaudíveis
badalem 12 vezes
despertando anjos e demônios
que se abrigam em
nossas cavernas interiores
ainda assim,
jamais negarei que te amo
Flores em você
(Para Ana)
cobrem macho e fêmea
calam palavras gêmeas
nos devolvem a lucidez
tuas intenções ágeis, desnudas
percorrem ávidas minh’alma
desfazendo meus nós co’calma
desatando nossas carícias mudas
absorves meu corpo por osmose
em doces fustigares de desejos
somos duas bocas sem beijos
cristais de néctares de uma dose
és voz serena que não escuto
sorriso largo que não vejo
sussurros livres de todo pejo
gritos lancinantes que expurgo
o meu todo amar e teu lento gostar
são adereços da mesma comunhão
são frutos doces da mesma intenção
são adornos do nosso mesmo estar
se a noite te leva e te trás
sinto que, tecelão que sou,
sou capaz de tecer sem dor
véus que te descubram mais
E todas as noites passo a viver
dessa ânsia intensa de esperar
pra dizer ao te encontrar
que eu vejo flores em você
Gratidão
Talvez um dia eu consiga encontrar uma palavra que traduza minha gratidão a todos aqueles que deixaram aqui seus sinais. Seja desejando meu pronto reestabelecimento físico, seja chegando-se em torno da imensa mesa de amigos - meus presentes - que vieram celebrar comigo o dom da vida. Hoje, eu sei, entretanto, que em nenhum idioma, em nenhum dicionário, em nenhum vocabulário vou conseguir encontrar as palavras que traduzam minha gratidão. Sem outra maior - mesmo porque não existem outras maiores -, agradeço com duas palavras que estão na essência da Vida. Amor e Bem.
Poucas palavras
Eu tenho fome da palavra.
Vivo da palavra mais que desejo.
A palavra dita, a palavra escrita
A palavra imaginada
A palavra me sublima
A palavra me oprime
comprime-se em meu peito
às vezes, a sussurro.
noutras, grito
sou a palavra que me revela
e me reveste de medo,
que me desnuda,
que me esfacela, às vezes.
sou palavra em versos,
ou letras embaralhadas
palavras desconexas
sílabas que se encaixam
e viram verdades
palavra em mim é necessidade
alimento e vinho
sou palavra nua e crua
algumas vezes interrogação
raro, afirmação
a palavra faz de mim servo
nem sei traduzi-las
misturadas formam novas formas
sou palavra em silêncio
sou a palavra orando,
pedindo, implorando
sou palavra cantando
sou palavra chorando
sou palavra de adeus
mas minha palavra final
é Amor
DE PRESENTES E AUSENTES
Todos os anos da minha vida havia um dia que eu aguardava com mais ansiedade. Cada vez que ventos fortes e enormes marés das grandes luas cheias anunciavam agosto, o menino magricela, de cabelos cortados - ironicamente - ao estilo militar e de um sorriso retraído e raro se enchia de ansiedade.
Era chegado o dia dos meus Presentes!
Não! Não os presentes materiais, porque esses meu pai nunca nos deixava faltar, mesmo quando a curva do destino apontava pra baixo e tudo parecia que ia descer junto. Ele sempre dava um jeito. “Operava milagres”, dizia mamãe Santa, acostumada, com ele, a transformar milagrosamente centavos em milhões e com eles alimentar sete filhos naturais, mais vários adotivos.
Os Presentes que eu tanto ansiava sempre estavam em torno da mesa do bolo. Primeiro, Batista e Lídice, meus prediletos; depois, Totó, Roberto, Júlio, Charles, Rui, Chico Caribé, Vicente, Zeca Gordo, além de minha penca de irmãos que para o menino magricela não havia distinção se eram ou não paridos do mesmo ventre.
Depois, o menino cresceu e os ventos do destino sopraram em outras direções. Alguns amigos foram se afastando ou eu me afastei deles. Chegaram novos amigos para a ceia, para o copo de chopp ou para a dose de campari ou uísque. Jomar, Jesus, Manoel, Zé Mario, Demerval, Dirceu, Wagner, Márcio, Rozzano, Toinho, Zezão, Nhozinho, Dadá, Silvinha, Fatinha, Gisele, Aldinete, Yara. A lista aumentava os presentes. Cada qual com sua essência. E eu comemorava esses presentes.
O tempo continuou. Inexorável. Deixando marcas, ausências. Trazendo novos Presentes: J. Alves, Cristina Cordeiro, Herbert Santos, Eliane, Cristina Farias, Diana, Márcia, Jorge, Zé Carlos, Creuza, Alsenor, Magnólia – cérebros e corações especiais do curso de Comunicação Social.
O menino tímido de sorriso raro agora era homem. De cabelos longos, bigode – sempre a esconder o sorriso tímido. Gostava de Roberto Carlos, de Raul Seixas, Emerson, Lake & Palmer, Bee Gees, Sérgio Sampaio – autor do meu hino à Vida (Eu quero é botar meu bloco na rua). Eu que sonhava ser poeta e jogador de futebol. Nem poeta, nem jogador. De poeta medíocre e jogador apenas razoável virei jornalista pela mais absoluta falta de opção. Só sabia - mal e parcamente -, escrever alguns textos jornalísticos. Desde meus doze anos eu o fazia para os clubinhos dos meus amigos - que eu não participava. Só escrevia. Ou melhor, enganava bem.
Reencontrei Herbert Santos e J. Alves nas redações da vida. Mas continuei a ganhar presentes: Nonato Reis e Josy, Waldirene e Walderina, Clecina e Emmanuel, Biaman Prado - o melhor repórter fotográfico que eu conheço e que nasceu no mesmo dia que eu -, Étia, Sílvia, Almir, Jorge, Carlão, Zé Carlos, Sidney Pereira e Ledinha, Oliveira Ramos, Sodré, Marina, Rubem, e tantos outros que foram presentes que aqui não dá pra nomear.
Agosto está de volta com sua lua esplêndida e seus ventos fortes que fazem as marés lamberem com vigor a areia grossa das praias de minha cidade.
Hoje é um daqueles dias ansiados pelo menino magricela. Já não serão tantos os presentes. E há muitas ausências.
Em torno da mesa terei minha família: os mais lindos Presentes que Deus pode dar àquele menino magricela de sorriso tímido. Minha esposa, meus dois filhos, minha mãe – Santa que operava o milagre da multiplicação dos centavos, os irmãos, cunhados (as) e os sobrinhos – 15 sanguíneos e outros 10 por afinidade.
Mas no imenso banquete da Vida estarão todos comigo. Todos os que citei aqui e os que sequer lembrei. E se juntarão aos novos amigos: Elise, Kyra, Cláudia, Ale, Aldinha, Cuca, Diana, Maria, Olga Maria, Rô, Mari, Tarciso, Lu, Loba, Dira, Jeanete, Ricardo, Gabi, Geórgia, Ariane, Fá, Ellis, Maria Cláudia, Truman, Dora, Ângela, Aghata, Lisa, Brisa, Pedro Ivo (que acha que a cor do meu blog é pink demais), e outros que a memória que hoje faz 51 já não tem a boa idéia de lembrar.
Meus preferidos da infância se foram. Lídice, pro Rio de Janeiro há mais de 35 anos e nunca mais tive notícias dela. Só saudade. Batista acreditou que era encerrado seu ciclo entre nós e subiu. Como Cristina Farias, Diana e Nhozinho. Trago-os na alma.
Caros amigos,
"Meu caro amigo me perdoe por favor
Se não lhe faço uma visita
Aqui na Terra tão jogando futebol
Tem mito choro, muito samba e rock n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer
É que a coisa aqui tá preta"
(Usando Chico pra justificar minha ausência)
Tô doente. Passei hoje dez horas internado em um hospital me submetendo a uma série de exames e os médicos não conseguiram diagnosticar o que tenho. Acreditam apenas que seja uma virose - talvez dengue - que teria adquirido em uma viagem que fiz recentemente a uma fazenda de um amigo. Mas não comemorem ainda! Não vou morrer. Não agora. Em breve volto pra responder a meus amigos e visitar todo mundo com quem estou em débito. Um alô especial para Lu Cavichioli: topo, mas me dê um tempo até que eu me recupere totalmente.
Eu voltarei breve, beijos.
Tutti-fruti
Teu toque é fruta-pão
quando tua pele toca minha pele
eriça meus pelos e sentidos
me perdendo em êxtases
Teu sorriso é fruta-de-condessa
que abocanho sem reservas
deixando escorrer néctares
supra-sumo de todos os desejos
teu ciúme é fruta-de-sabiá
a envenenar à minha volta
destruindo todas as sementes
e mexendo com meu sossego
Teu corpo é juçara
a renovar energias
saciar minha sede
e minha fantasia
Teu beijo é maçã
a insinuar pecado
na mistura de línguas
a inflamar sentidos
Teu sexo é fruto proibido
o sabor eu não digo
pois vocês não têm idade
pra tamanha curiosidade
Nonato Reis e os muitos “Eu’s”
Tenho por hábito responder individualmente a cada comentário feito em minha página. Quando não o faço se dá por um motivo simples: não quero fazê-lo. Isso é raro, e acontece sempre que escrevo algo que foge à virtualidade de meus textos que alguns – menos eu – acreditam e chamam de poesia. Quando falo de mim, de Regis, raramente respondo. Ficaria piegas demais...
Também não ia responder aos amigos que emitiram opinião sobre minha carta a Nonato Reis. Achava – e continuo achando – que minha carta era e é um tributo a um amigo com quem tive a honra de trabalhar alguns belos e honrados anos de meus 20 de jornalismo em redações (tive, antes, outros 4 em assessoria de imprensa).
Como dizia Millor Fernandes, “livre pensar é só pensar”. Todos os amigos de Reis – desculpem esse tom intimista, mas é assim que ele é conhecido aqui em nossa terra -, que vieram ao meu blog vieram movidos, tenho certeza, pela mais pura solidariedade a esse homem que em pouco tempo soube reunir em torno de si algumas das mais belas cabeças deste mundo blogueiro. Alguns o conheceram depois de vir aqui. Mas a maioria esmagadora o conheceu por ele mesmo. Talvez retribuindo visitas que ele fazia, não sei...
Não quis, em momento algum, intimá-lo, em nome da amizade que nos une, a voltar a escrever no seu espaço. Apesar dos quase 20 anos de amizade, jamais privei com ele socialmente em outro espaço. Nossa amizade, embora sólida e alicerçada em princípios morais bastante definidos, jamais ultrapassou a boa convivência do trabalho. Há muito ele vinha tentando um contato social mais próximo comigo. Como tenho um caráter reservado e tímido, vinha adiando esse encontro.
Sua saída e meu texto – anunciado e sempre adiado -, precipitaram esse encontro. E foi dele a iniciativa de perguntar a que fatores eu atribuía sua saída. Disse-lhe, sem meias palavras, que ele não havia resistido à pressão de fatores alheios à sua vontade. Quis dizer, uma vez mais, que o compromisso de postar, aguardar respostas e responder aos comentários entranha de tal forma em nosso cotidiano que nos vemos enredados numa armadilha: ou escrevemos – e realimentamos esse ciclo -, ou silenciamos e ficamos nos sentindo em débito com quem vem gentilmente ler nossos escritos – muitas vezes para cumprir um ritual.
Jamais pensei em fazer deste espaço um fórum das grande discussões nacionais. Por isso o nome: Poesias & Cia. E a minha “poesia” não prescinde de meu Eu, embora o que eu faça aqui, com certeza, não seja poesia na expressão mais literal da palavra. Aqui, ao escrever, eu sou Eu. E falo de mim. De meus sentimentos, das pessoas que amo. E deixo minha imaginação fazer o resto do trabalho.
Quando descobri esta ferramenta só queria escrever crônicas e artigos de cunho jornalístico. Até porque não sei fazer nada, além disso, e minha modéstia me impede de dizer que meus textos são poemas. Sei que não o são.
Quando procurei Reis, queria outra vez sua opinião isenta sobre o que eu estava fazendo no mundo blogueiro. Sua resposta foi tão entusiasmada que culminou com a publicação de meus versos em sua coluna semanal de um importante jornal de nossa cidade. Junto, elogios imerecidos dele a mim. Propus, então, que criasse seu próprio espaço para usar como memória de seu trabalho. Eu mesmo criei seu blog.
O encontro com Reis, embora rápido, mostrou-me que ele na verdade questiona não o formato ou o tom intimista dos blogs. Como pode ser intimista algo que é aberto a discussões, contestações? Falar de si de maneira pública extrapola a intimidade. Se há quem se desnude aqui – e eu, certamente, me incluo nessa classificação -, o faz exatamente por se despir de preconceito e se mostrar na sua essência. Os temas são intimistas? Talvez. Mas há foros de discussões abertos em grandes veículos de comunicação. Qualquer pessoa pode abrir um site de uma agência de notícias – Folha, Terra, UOL, etc -, e debater as questões relevantes no cenário nacional. O blog é uma página pessoal e, desde que aberto, deixa de ser intimista. Apesar do caráter intimista dos textos de alguns...ou da maioria. Isso não impede – e nem exclui – que qualquer um possa transformar sua página num fórum de discussão de matérias relevantes para a consolidação do estado democrático de fato e de direito.
Qualquer que seja o motivo que o levou a suspender ou encerrar sua página não me diz respeito e não sou eu quem vai analisar as suas razões. Aceito-as como fato consumado. Eu preferiria tê-lo aqui. Debatendo, polemizando, colocando em pauta questões como a educação, a filosofia, a política e a economia. Eu, com meus muitos Eu’s, continuarei a falar de sentimentos e de pessoas. São elas a essência de minha vida. E o ser humano há de ser sempre o centro de todas as minhas atenções. Seja fazendo “poesia”, crônicas ou cartas a amigos que amo.
Carta a Nonato Reis
Hoje não és meu chefe. Nem eu, o teu. Somos, agora, mais que irmãos que se conheceram na dura labuta das redações em defesa de nossos ideais e de nossos outros irmãos que têm raízes humildes, como nós, mas que, ao contrário da gente, não tiveram a sorte ou o benefício de conquistar seu próprio espaço. Lutamos juntos pelos desamparados; lutamos pela ética no jornalismo. Estávamos na mesma trincheira o tempo todo. Fomos (e somos), bravos e fortes. Afinal, como disse o poeta Gonçalves Dias, ser bravo e ser forte é ser filho do Norte.
Criei teu blog. Queria que o mundo descobrisse o poeta latente em tua obra jornalística e o extraordinário repórter do jornalismo poético. Todos lamentam tua saída. Eu, não. Teu legado há de se perpetuar, embora que tua obra esteja incompleta. E hás de voltar para terminá-la. O que sentes também já vivi. E isso passa, volta, vai, volta. É assim o mundo dos blogs. Como a gente dizia na redação: "uma cachaça". Vicia. Entranha na alma.
Caro amigo, não sei o que te fez tomar tão drástica decisão. Nem farei julgamentos sobre ela. A decisão é tua, de foro íntimo. Espero, entretanto, que não tenhas sido levado a ela por pressões externas. Seria danoso para o conjunto do teu trabalho e para todos aqueles que, aqui, se acostumaram com a leitura simples, fácil objetiva e coerente de teus escritos.
É verdade que o mundo dos blogs exerce uma forte pressão sobre nós. Há momentos em que o quase compromisso de visitar outros espaços, comentar e responder aos comentários dos que nos visitam se torna uma rotina estafante e, muitas vezes, estressante. Também tive momentos que beiraram o pânico diante de tal pressão. Hoje, sereno e sabendo que, antes de tudo tenho este espaço para escrever o que quero, para minha satisfação pessoal, já não me sinto vítima dele. Tenho-o sob total controle.
Há um grande espaço para você continuar. Mesmo que não seja agora e nem nos termos que isso vinha acontecendo. Aqui em nossa terra, quem faz jornalismo sabe de teu conceito e de tua capacidade. És um exemplo de retidão de caráter, de capacidade técnica – a perfeição de teu texto é indiscutível – e tua extrema sensibilidade para as mais relevantes questões sociais põe em cheque tua decisão de parar. É preciso estimular o debate. É preciso questionar. Por isso entramos nesse jogo do jornalismo sem medos. Foi isso que fez de nós dois homens respeitados em nossa terra. Não temos nódoas em nossa carreira. Nunca tivemos medo.
Tínhamos tudo para nos enlamear. Não o fizemos! Começamos nossas carreiras praticamente juntos. Eu, um ano antes, em 1984 entrei no Jornal de Hoje – a máquina de vendagem à qual você se referiu recentemente – como simples repórter. Tinha medo de perder-me em meio à mediocridade, à corrupção e à venalidade que são tão presentes entre aqueles que, em nossa profissão, não têm compromisso com o seu próximo. Graças a Deus e à estrutura familiar que eu tinha e o exemplo de meu pai, jornalista íntegro, sobrevivi e cresci. Tive uma carreira meteórica. Em um ano era editor-chefe. A pressão política exigia no cargo alguém mais experiente e logo fui “despromovido” a secretário de redação, onde você me encontraria em julho de
Em dezembro de 1985 deixei o Jornal de Hoje para ir fundar e dirigir o Diário do Norte, cujo trabalho foi o meu maior orgulho profissional. Em um ano havíamos conquistado nosso espaço e éramos os líderes
Temos pouco
O que nos une, então, nessa amizade que já, já chega aos 20 anos? Nossa visão de mundo, tenho certeza! Nossa indignação que aprendemos com nossos pais, com nossos companheiros de redação. Com o dia-a-dia de nossa lida nas ruas como formadores de opinião, como editores, como colunistas do cotidiano e repórteres argutos de nosso tempo. Não tememos nada. Políticos, polícia, bandidos. Alguns, muitas vezes, no papel dos outros.
Diante de minha postura independente não há portas abertas para o meu trabalho. Não consigo emprego como jornalista. Mas não me arrependo de nada. Começaria tudo outra vez se fosse para encontrar tua pena e tua amizade, outra vez. Para te encontrar sentado à frente de um computador reescrevendo a História como ela merece ser contada e não como os homens a fazem. Era essa a nossa utopia em comum.
Se posso recomeçar lá, porque não o podes aqui? Esperarei por isso. Pela tua volta. O tempo que for necessário. Amo você, amigo.

Seja, então...
Sou uma manhã que grita por sol.
E se não há brilho algum em mim...
Que seja, então, uma clave de sol.
Sou uma tarde que clama pelo poente
E se meu entardecer já se decompõe...
Que seja, então, o meu crepúsculo!
Sou uma noite a procurar por estrelas!
E se não há em mim nenhum firmamento...
Que seja, então, uma estrela-do-mar
Sou uma madrugada a te procurar na solidão!
E se tu não és o corpo na minha cama...
Que seja, então, eterna, essa ilusão...
Rorejar
alma plena
refaz esperanças
se faz sedução
a consumir desejos
despertar paixões
a rabiscar sonhos
em gotas de orvalho
que brotam do corpo
descem acariciando
a pele sedenta de amor
e deságuam
em doces cascatas
a banhar seu leito
inverter conceitos
desfazer preconceitos
e surgir, outra vez,
serena, a rorejar
(Para Rô, amiga especial, que tantas vezes me emocionou
e a quem sou grato por isso e muito mais. Te amo, menina!)
Barracão de zinco
Era um homem singular. Eu sei que todos vão dizer a mesma coisa. “Teu amor te faz dizer isso”, dirão. Talvez, talvez. Há tantas histórias parecidas com a desse filho de pescador que nada mais pode comover. Órfão de mãe aos 4ª anos foi, garoto pobre, entregador de encomendas de uma loja de tecidos. Estudou só até o 4º ano do antigo primário. Abandonou a escola para trabalhar. “Igual a milhões de sua geração e de um estado pobre como o seu, Regis”, contestarão uns. É verdade, igual a milhões.
O amor à leitura o tornaria um dos mais brilhantes tribunos de sua geração. Sua oratória impecável e sem um único erro gramatical o levaria a, primeiro, enveredar pela política trabalhista, tornando-se um dos mais jovens líderes sindicais do Brasil no conturbado pós-guerra. A política sindical o levaria à política partidária. “Inevitável”, dirão ainda. Mas ser líder sindical e socialista num país militarizado; e partidário disfarçado do nazismo era uma temeridade. Ser político contra os esquemas coronelistas que imperavam no Brasil e principalmente no Nordeste, não era, certamente, algo comum. “Mas também nada tinha de extraordinário”, replicarão.
Virou jornalista brilhante e fecundo. Formou trincheira com líderes nacionais em defesa dos trabalhadores da estiva, do comércio, da lavoura, das fábricas de algodão e medicamentos. Foi perseguido e ameaçado todos os dias de sua militância. Também, nada de diferente. Afinal, defender trabalhador é perigoso até mesmo num governo trabalhista como o de hoje. Que o diga a senadora Heloísa Helena...
Elegeu-se deputado estadual. Combateu corruptos e governantes ladrões que desde então infestavam os palácios suntuosos de sua terra miserável. Por eles foi entregue à escória que se locupletou do país desde a instalação dos anos de chumbo da Ditadura Militar. Em troca de seu pescoço e de outros importantes líderes de esquerda, livraram as cabeças dos Barrabás de nossa política. “Então, foi um Cristo?”, perguntarão vocês entre irônicos e horrorizados com tal heresia. “Não” – responderei -, apenas os outros é que eram ladrões”. E ele foi crucificado à moda da ditadura: foi preso, cassado, torturado psicologicamente e devolvido a uma família unida, mas em frangalhos.
E como amou essa família! Viveu dela e para ela. Cassado e sem emprego montou uma banca de revistas para sustentar os sete filhos e a mulher digna e única. É verdade, o deputado foi vender revistas numa banca. E tirou seu sustento dali. Ora revezando com os filhos, ora com a mulher, em horários que invariavelmente começavam as sete da manhã e se estendiam às 7 da noite. Sábados e domingo, inclusive.
O maior prazer de sua vida era fazer festa de aniversário para os filhos. Os sete. Amou cada um com tal intensidade como se cada um fosse único. Chorava de tristeza com nos momentos tristes. Chorava de emoção com as vitórias. Nada, nem ninguém, o fazia deixar de chorar com a chegada de cada neto. Era emoção pura. E fazia festa. Uma pra cada um. Sete meses por ano. E mais o dele e o da esposa digna e única. E mais o Dia das Mães. E outra festa no Dia dos Pais. E festa de carnaval, natal, páscoa. E festa de aniversário de cada neto. E tome festa, e tome festa. Era seu jeito de tê-los por perto. Fazendo festa!
Eu lembro desse homem todos os dias. Desde que um tumor no pulmão derrotou o homem que a todos parecia invencível. Hoje, no Dia dos Pais, uma vez mais vamos nos reunir em torno de uma mesa – assim que ele gostava -, vamos rezar a oração que o Pai nos ensinou. E agradecer por esse homem singular que para minha sorte e felicidade, foi meu pai: Manoel Vera Cruz Ribeiro Marques. Alguém discorda?
PS: Ah, o que o título tem a ver com isso? Barracão de Zinco era o nome da música que ele mais amava. Mesmo nos momentos mais difíceis ele a trazia nos lábios.
Desejos
Tocas a minha quietude
com o gume mais afiado,
desafiando meu desejo
sou mais que festa
sou teu num lampejo
me revolve a alma
me debulha e me fere
como a ponta da agulha
sou lufadas de ventos alísios
onde, insepultos, encerras
teus desejos e quimeras
e na minha imaginação asséptica
tua língua viceja e lacera
todas a minhas tensões e limites
sou teu poeta de versos desnudos
és minha poesia inconclusa
Você me quer e me assusta
me invade a alma
despe meus textos
inverte segredos
fareja meu cheiro
e, em êxtase,
rompe meus diques
destrói minhas amarras
e, serenados medos
me entrego
sem óbices
Sou dela. Ela é minha
Quando a vi pela primeira vez disse pra mim mesmo que aquela era a mulher da minha vida. Disse-lhe isso na primeira oportunidade que tive. Ela apenas sorriu. Com aquele sorriso que me provocou naquela hora e até hoje me provoca. Eu a queria. Quase obsessivamente. Sorria com os olhos, como um anjo. Caminhava com passos firmes e sensuais. Seu rosto trazia certa sombra de tristeza, mas havia nele Vida. Muita vida. Loura, alta, tinha uma beleza rara. Mas não passava de uma menina naquelas formas provocantes.
E ficamos a namorar com olhares ousados, com o roçar de nossas mãos, com os nossos sorrisos tímidos e com a certeza que nunca nos pertenceríamos. Eu estava a seis meses de me casar com outra.
Durante os meses seguidos nos encontrávamos às escondidas. Só nós acreditávamos que mantínhamos aquele amor
Não tive coragem de romper com o passado e tomar o novo curso da minha vida. Casei. Um erro. Mais um, de tantos que cometi. Dois anos depois não havia mais casamento e o amor por ela era apenas uma lembrança guardada em algum lugar do peito.
Uma noite, ia com amigos ao show “Emoções”, de Roberto Carlos. Ao passar perto de sua casa vi sua silhueta delineada à contraluz. Naquela noite cantei “Emoções” e reembalei todos os sonhos cantados tantas vezes com ela nas canções do Rei. Não havia dúvida: eu era dela e ela era minha. Estava escrito nas estrelas, nos pergaminhos, nos alfarrábios, nas páginas tortas do Destino.
Na noite seguinte eu a procurei em sua casa. Inevitável o reencontro. Inevitável o reascender daquela chama. Agora não havia mais alianças, compromissos, barreiras. Eu era dela. Ela era minha. E fui dela naquela noite e ela foi minha. E todas as emoções foram poucas para aplacar nossa sede de amar. Quando a manhã azul nos encontrou estávamos na praia. Olhávamos juntos o leve bailado das ondas. Olhávamos na mesma direção. Em direção ao sol que surgia no horizonte e em nossas vidas. O novo sol de nossas vidas.
Unimos nossas vidas. Dura vida. Mas marcadas por poesia, romance, emoções. Muitas emoções, como diria o Rei.
Dois filhos, jóias de nossa História de Amor – pedras buriladas com tanto esmero e amor pelo Supremo Arquiteto do Universo, que mal consigo transformar em atos tamanho amor que lhes dedico. Nós somos deles. Eles são nossos. Nasceram de mim e dela. E há tanto amor nesse ato de ser pai e mãe que quase me convenço que somos únicos nessa forma de amar.
Um dia vão partir. Serão donos de suas vidas. Mas serão sempre nossos. Ad Eternum.
Minha vida se transformou. Cometi erros. Muitos erros. Mas hoje decidi refazer as minhas emoções. Refazer minha vida. Consertar os erros. Sei que cicatrizes hão de ficar. Sei que ainda vão ficar mágoas. Mas não posso ter medo! Não me cabe aqui ter medo. Essas cicatrizes também vão desaparecer.
Quero-a! Como da primeira vez! Afinal, passados vinte anos, sou dela, e ela é minha. Como na primeira vez que nos vimos. Nosso amor há de se fortalecer outra vez e virar novas páginas de muitos mais anos: 20..., 30..., 40..., 50....
Afinal, sou dela! E ela é minha. Ela é minha mulher, Neusa. Pra sempre!
Reencontro
Meu canto pousou, outra vez, suave
como asas de gaivotas, serenas
e volto a olhar teus olhos e sorrir
estou de volta pra ti
estás de volta pra mim
sou tua ave, tua face, tua prece
tu és minha pena, minha festa
somos, eu e tu, cúmplices
no louco ato de cometer a Vida
no ritmo alucinante
desse estranho bailado
de cantos celestiais embalado
e doces cristais brotam
das janelas da alma,
em cascatas,
a perpetuar nosso reencontro
Tu e eu, eu e tu, poesia
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