Tempo de espera

 

A vida brinca comigo

sou seu joguete

ela, meu estilete

me lacera

A vida joga comigo

Sou sua peteca

Ela, minha raquete

Me bate

A vida é rude comigo

Sou mero espectador

Ela, o grande ator

Me ilude

A vida se esconde de mim

E esconde a dor em mim

Me absorve, me envolve

Me consome

some

Razões

 

Inda que a manhã não nasça azul

– e o azul sequer amanheça

mesmo que o cinzel inverta o traço

e trace um monstro

na obra-prima do artesão

que esculpi a teia de vidro

se o badalo torto toque só onze

das doze vezes à meia-noite

e o cântico do ângelus

silencie três vezes

na prece inaudível

que repreenda a fé do cético

Inda que nada aconteça

e nem amanheça

inda que nossos fantasmas

de vidro se estilhassem

contra as paredes de nossas vontades

inda se sons inaudíveis

badalem 12 vezes

despertando anjos e demônios

que se abrigam em

nossas cavernas interiores

ainda assim,

jamais negarei que te amo

 

 

Flores em você

(Para Ana)

 véus vestindo sensatez

cobrem macho e fêmea

calam palavras gêmeas

nos devolvem a lucidez

tuas intenções ágeis, desnudas

percorrem ávidas minh’alma

desfazendo meus nós co’calma

desatando nossas carícias mudas

absorves meu corpo por osmose

em doces fustigares de desejos

somos duas bocas sem beijos

cristais de néctares de uma dose

és voz serena que não escuto

sorriso largo que não vejo

sussurros livres de todo pejo

gritos lancinantes que expurgo

o meu todo amar e teu lento gostar

são adereços da mesma comunhão

são frutos doces da mesma intenção

são adornos do nosso mesmo estar

se a noite te leva e te trás

sinto que, tecelão que sou,

sou capaz de tecer sem dor

véus que te descubram mais

E todas as noites passo a viver

dessa ânsia intensa de esperar

pra dizer ao te encontrar

que eu vejo flores em você

Gratidão

           Talvez um dia eu consiga encontrar uma palavra que traduza minha gratidão a todos aqueles que deixaram aqui seus sinais. Seja desejando meu pronto reestabelecimento físico, seja chegando-se em torno da imensa mesa de amigos - meus presentes - que vieram celebrar comigo o dom da vida. Hoje, eu sei, entretanto, que em nenhum idioma, em nenhum dicionário, em nenhum vocabulário vou conseguir encontrar as palavras que traduzam minha gratidão. Sem outra maior - mesmo porque não existem outras maiores -, agradeço com duas palavras que estão na essência da Vida. Amor e Bem.  

 Poucas palavras

Eu tenho fome da palavra.

Vivo da palavra mais que desejo.

A palavra dita, a palavra escrita

A palavra imaginada

A palavra me sublima

A palavra me oprime

comprime-se em meu peito

às vezes, a sussurro.

noutras, grito

sou a palavra que me revela

e me reveste de medo,

que me desnuda,

que me esfacela, às vezes.

sou palavra em versos,

ou letras embaralhadas

palavras desconexas

sílabas que se encaixam

e viram verdades

palavra em mim é necessidade

alimento e vinho

sou palavra nua e crua

algumas vezes interrogação

raro, afirmação

a palavra faz de mim servo

nem sei traduzi-las

misturadas formam novas formas

sou palavra em silêncio

sou a palavra orando,

pedindo, implorando

sou palavra cantando

sou palavra chorando

sou palavra de adeus

mas minha palavra final

é Amor

DE PRESENTES E AUSENTES

 

         Todos os anos da minha vida havia um dia que eu aguardava com mais ansiedade. Cada vez que ventos fortes e enormes marés das grandes luas cheias anunciavam agosto, o menino magricela, de cabelos cortados - ironicamente - ao estilo militar e de um sorriso retraído e raro se enchia de ansiedade.

         Era chegado o dia dos meus Presentes!

         Não! Não os presentes materiais, porque esses meu pai nunca nos deixava faltar, mesmo quando a curva do destino apontava pra baixo e tudo parecia que ia descer junto. Ele sempre dava um jeito. “Operava milagres”, dizia mamãe Santa, acostumada, com ele, a transformar milagrosamente centavos em milhões e com eles alimentar sete filhos naturais, mais vários adotivos.

         Os Presentes que eu tanto ansiava sempre estavam em torno da mesa do bolo. Primeiro, Batista e Lídice, meus prediletos; depois, Totó, Roberto, Júlio, Charles, Rui, Chico Caribé, Vicente, Zeca Gordo, além de minha penca de irmãos que para o menino magricela não havia distinção se eram ou não paridos do mesmo ventre.

         Depois, o menino cresceu e os ventos do destino sopraram em outras direções. Alguns amigos foram se afastando ou eu me afastei deles. Chegaram novos amigos para a ceia, para o copo de chopp ou para a dose de campari ou uísque. Jomar, Jesus, Manoel, Zé Mario, Demerval, Dirceu, Wagner, Márcio, Rozzano, Toinho, Zezão, Nhozinho, Dadá, Silvinha, Fatinha, Gisele, Aldinete, Yara. A lista aumentava os presentes. Cada qual com sua essência. E eu comemorava esses presentes.

         O tempo continuou. Inexorável. Deixando marcas, ausências. Trazendo novos Presentes: J. Alves, Cristina Cordeiro, Herbert Santos, Eliane, Cristina Farias, Diana, Márcia, Jorge, Zé Carlos, Creuza, Alsenor, Magnólia – cérebros e corações especiais do curso de Comunicação Social.

         O menino tímido de sorriso raro agora era homem. De cabelos longos, bigode – sempre a esconder o sorriso tímido. Gostava de Roberto Carlos, de Raul Seixas, Emerson, Lake & Palmer, Bee Gees, Sérgio Sampaio – autor do meu hino à Vida (Eu quero é botar meu bloco na rua). Eu que sonhava ser poeta e jogador de futebol. Nem poeta, nem jogador. De poeta medíocre e jogador apenas razoável virei jornalista pela mais absoluta falta de opção. Só sabia - mal e parcamente -, escrever alguns textos jornalísticos. Desde meus doze anos eu o fazia para os clubinhos dos meus amigos - que eu não participava. Só escrevia. Ou melhor, enganava bem.

         Reencontrei Herbert Santos e J. Alves nas redações da vida. Mas continuei a ganhar presentes: Nonato Reis e Josy, Waldirene e Walderina, Clecina e Emmanuel, Biaman Prado - o melhor repórter fotográfico que eu conheço e que nasceu no mesmo dia que eu -, Étia, Sílvia, Almir, Jorge, Carlão, Zé Carlos, Sidney Pereira e Ledinha, Oliveira Ramos, Sodré, Marina, Rubem, e tantos outros que foram presentes que aqui não dá pra nomear.

         Agosto está de volta com sua lua esplêndida e seus ventos fortes que fazem as marés lamberem com vigor a areia grossa das praias de minha cidade.

         Hoje é um daqueles dias ansiados pelo menino magricela. Já não serão tantos os presentes. E há muitas ausências.

Em torno da mesa terei minha família: os mais lindos Presentes que Deus pode dar àquele menino magricela de sorriso tímido. Minha esposa, meus dois filhos, minha mãe – Santa que operava o milagre da multiplicação dos centavos, os irmãos, cunhados (as) e os sobrinhos – 15 sanguíneos e outros 10 por afinidade.

Mas no imenso banquete da Vida estarão todos comigo. Todos os que citei aqui e os que sequer lembrei. E se juntarão aos novos amigos: Elise, Kyra, Cláudia, Ale, Aldinha, Cuca, Diana, Maria, Olga Maria, Rô, Mari, Tarciso, Lu, Loba, Dira, Jeanete, Ricardo, Gabi, Geórgia, Ariane, Fá, Ellis, Maria Cláudia, Truman, Dora, Ângela, Aghata, Lisa, Brisa, Pedro Ivo (que acha que a cor do meu blog é pink demais), e outros que a memória que hoje faz 51 já não tem a boa idéia de lembrar.

Meus preferidos da infância se foram. Lídice, pro Rio de Janeiro há mais de 35 anos e nunca mais tive notícias dela. Só saudade. Batista acreditou que era encerrado seu ciclo entre nós e subiu. Como Cristina Farias, Diana e Nhozinho. Trago-os na alma.

A grande ausência ainda sentida é a de quem comprava os presentes materiais: meu pai. Esse presente Deus quis pra ele.

Caros amigos,

                                "Meu caro amigo me perdoe por favor

                                 Se não lhe faço uma visita

                                 Aqui na Terra tão jogando futebol

                                 Tem mito choro, muito samba e rock n' roll

                                 Uns dias chove, noutros dias bate sol

                                 Mas o que eu quero é lhe dizer

                                 É que a coisa aqui tá preta"

                                     (Usando Chico pra justificar minha ausência)

Tô doente. Passei hoje dez horas internado em um hospital me submetendo a uma série de exames e os médicos não conseguiram diagnosticar o que tenho. Acreditam apenas que seja uma virose - talvez dengue - que teria adquirido em uma viagem que fiz recentemente a uma fazenda de um amigo. Mas não comemorem ainda! Não vou morrer. Não agora. Em breve volto pra responder a meus amigos e visitar todo mundo com quem estou em débito. Um alô especial para Lu Cavichioli: topo, mas me dê um tempo até que eu me recupere totalmente. 

Eu voltarei breve, beijos.

 Tutti-fruti

 

Teu toque é fruta-pão

quando tua pele toca minha pele

eriça meus pelos e sentidos

me perdendo em êxtases

 

Teu sorriso é fruta-de-condessa

que abocanho sem reservas

deixando escorrer néctares

supra-sumo de todos os desejos

 

teu ciúme é fruta-de-sabiá

a envenenar à minha volta

destruindo todas as sementes

e mexendo com meu sossego

 

Teu corpo é juçara

a renovar energias

saciar minha sede

e minha fantasia

 

Teu beijo é maçã

a insinuar pecado

na mistura de línguas

a inflamar sentidos

 

Teu sexo é fruto proibido

o sabor eu não digo

pois vocês não têm idade

pra tamanha curiosidade

 

Nonato Reis e os muitos “Eu’s”

 

         Tenho por hábito responder individualmente a cada comentário feito em minha página. Quando não o faço se dá por um motivo simples: não quero fazê-lo. Isso é raro, e acontece sempre que escrevo algo que foge à virtualidade de meus textos que alguns – menos eu – acreditam e chamam de poesia. Quando falo de mim, de Regis, raramente respondo. Ficaria piegas demais...

         Também não ia responder aos amigos que emitiram opinião sobre minha carta a Nonato Reis. Achava – e continuo achando – que minha carta era e é um tributo a um amigo com quem tive a honra de trabalhar alguns belos e honrados anos de meus 20 de jornalismo em redações (tive, antes, outros 4 em assessoria de imprensa).

         Como dizia Millor Fernandes, “livre pensar é só pensar”. Todos os amigos de Reis – desculpem esse tom intimista, mas é assim que ele é conhecido aqui em nossa terra -, que vieram ao meu blog vieram movidos, tenho certeza, pela mais pura solidariedade a esse homem que em pouco tempo soube reunir em torno de si algumas das mais belas cabeças deste mundo blogueiro. Alguns o conheceram depois de vir aqui. Mas a maioria esmagadora o conheceu por ele mesmo. Talvez retribuindo visitas que ele fazia, não sei...

         Não quis, em momento algum, intimá-lo, em nome da amizade que nos une, a voltar a escrever no seu espaço. Apesar dos quase 20 anos de amizade, jamais privei com ele socialmente em outro espaço. Nossa amizade, embora sólida e alicerçada em princípios morais bastante definidos, jamais ultrapassou a boa convivência do trabalho. Há muito ele vinha tentando um contato social mais próximo comigo. Como tenho um caráter reservado e tímido, vinha adiando esse encontro.

         Sua saída e meu texto – anunciado e sempre adiado -, precipitaram esse encontro. E foi dele a iniciativa de perguntar a que fatores eu atribuía sua saída. Disse-lhe, sem meias palavras, que ele não havia resistido à pressão de fatores alheios à sua vontade. Quis dizer, uma vez mais, que o compromisso de postar, aguardar respostas e responder aos comentários entranha de tal forma em nosso cotidiano que nos vemos enredados numa armadilha: ou escrevemos – e realimentamos esse ciclo -, ou silenciamos e ficamos nos sentindo em débito com quem vem gentilmente ler nossos escritos – muitas vezes para cumprir um ritual.

         Jamais pensei em fazer deste espaço um fórum das grande discussões nacionais. Por isso o nome: Poesias & Cia. E a minha “poesia” não prescinde de meu Eu, embora o que eu faça aqui, com certeza, não seja poesia na expressão mais literal da palavra. Aqui, ao escrever, eu sou Eu. E falo de mim. De meus sentimentos, das pessoas que amo. E deixo minha imaginação fazer o resto do trabalho.

         Quando descobri esta ferramenta só queria escrever crônicas e artigos de cunho jornalístico. Até porque não sei fazer nada, além disso, e minha modéstia me impede de dizer que meus textos são poemas. Sei que não o são.     

         Quando procurei Reis, queria outra vez sua opinião isenta sobre o que eu estava fazendo no mundo blogueiro. Sua resposta foi tão entusiasmada que culminou com a publicação de meus versos em sua coluna semanal de um importante jornal de nossa cidade. Junto, elogios imerecidos dele a mim. Propus, então, que criasse seu próprio espaço para usar como memória de seu trabalho. Eu mesmo criei seu blog.

         O encontro com Reis, embora rápido, mostrou-me que ele na verdade questiona não o formato ou o tom intimista dos blogs. Como pode ser intimista algo que é aberto a discussões, contestações?  Falar de si de maneira pública extrapola a intimidade. Se há quem se desnude aqui – e eu, certamente, me incluo nessa classificação -, o faz exatamente por se despir de preconceito e se mostrar na sua essência. Os temas são intimistas? Talvez. Mas há foros de discussões abertos em grandes veículos de comunicação. Qualquer pessoa pode abrir um site de uma agência de notícias – Folha, Terra, UOL, etc -, e debater as questões relevantes no cenário nacional. O blog é uma página pessoal e, desde que aberto, deixa de ser intimista. Apesar do caráter intimista dos textos de alguns...ou da maioria. Isso não impede – e nem exclui – que qualquer um possa transformar sua página num fórum de discussão de matérias relevantes para a consolidação do estado democrático de fato e de direito.

Qualquer que seja o motivo que o levou a suspender ou encerrar sua página não me diz respeito e não sou eu quem vai analisar as suas razões. Aceito-as como fato consumado. Eu preferiria tê-lo aqui. Debatendo, polemizando, colocando em pauta questões como a educação, a filosofia, a política e a economia. Eu, com meus muitos Eu’s, continuarei a falar de sentimentos e de pessoas. São elas a essência de minha vida. E o ser humano há de ser sempre o centro de todas as minhas atenções. Seja fazendo “poesia”, crônicas ou cartas a amigos que amo.

Carta a Nonato Reis
Hoje não és meu chefe. Nem eu, o teu. Somos, agora, mais que irmãos que se conheceram na dura labuta das redações em defesa de nossos ideais e de nossos outros irmãos que têm raízes humildes, como nós, mas que, ao contrário da gente, não tiveram a sorte ou o benefício de conquistar seu próprio espaço. Lutamos juntos pelos desamparados; lutamos pela ética no jornalismo. Estávamos na mesma trincheira o tempo todo. Fomos (e somos), bravos e fortes. Afinal, como disse o poeta Gonçalves Dias, ser bravo e ser forte é ser filho do Norte.

Criei teu blog. Queria que o mundo descobrisse o poeta latente em tua obra jornalística e o extraordinário repórter do jornalismo poético. Todos lamentam tua saída. Eu, não. Teu legado há de se perpetuar, embora que tua obra esteja incompleta. E hás de voltar para terminá-la. O que sentes também já vivi. E isso passa, volta, vai, volta. É assim o mundo dos blogs. Como a gente dizia na redação: "uma cachaça". Vicia. Entranha na alma.

Caro amigo, não sei o que te fez tomar tão drástica decisão. Nem farei julgamentos sobre ela. A decisão é tua, de foro íntimo. Espero, entretanto, que não tenhas sido levado a ela por pressões externas. Seria danoso para o conjunto do teu trabalho e para todos aqueles que, aqui, se acostumaram com a leitura simples, fácil objetiva e coerente de teus escritos.

É verdade que o mundo dos blogs exerce uma forte pressão sobre nós. Há momentos em que o quase compromisso de visitar outros espaços, comentar e responder aos comentários dos que nos visitam se torna uma rotina estafante e, muitas vezes, estressante. Também tive momentos que beiraram o pânico diante de tal pressão. Hoje, sereno e sabendo que, antes de tudo tenho este espaço para escrever o que quero, para minha satisfação pessoal, já não me sinto vítima dele. Tenho-o sob total controle.

Há um grande espaço para você continuar. Mesmo que não seja agora e nem nos termos que isso vinha acontecendo. Aqui em nossa terra, quem faz jornalismo sabe de teu conceito e de tua capacidade. És um exemplo de retidão de caráter, de capacidade técnica – a perfeição de teu texto é indiscutível – e tua extrema sensibilidade para as mais relevantes questões sociais põe em cheque tua decisão de parar. É preciso estimular o debate. É preciso questionar. Por isso entramos nesse jogo do jornalismo sem medos. Foi isso que fez de nós dois homens respeitados em nossa terra. Não temos nódoas em nossa carreira. Nunca tivemos medo.

Tínhamos tudo para nos enlamear. Não o fizemos! Começamos nossas carreiras praticamente juntos. Eu, um ano antes, em 1984 entrei no Jornal de Hoje – a máquina de vendagem à qual você se referiu recentemente – como simples repórter. Tinha medo de perder-me em meio à mediocridade, à corrupção e à venalidade que são tão presentes entre aqueles que, em nossa profissão, não têm compromisso com o seu próximo. Graças a Deus e à estrutura familiar que eu tinha e o exemplo de meu pai, jornalista íntegro, sobrevivi e cresci. Tive uma carreira meteórica. Em um ano era editor-chefe. A pressão política exigia no cargo alguém mais experiente e logo fui “despromovido” a secretário de redação, onde você me encontraria em julho de 1885. A empatia foi imediata.

Em dezembro de 1985 deixei o Jornal de Hoje para ir fundar e dirigir o Diário do Norte, cujo trabalho foi o meu maior orgulho profissional. Em um ano havíamos conquistado nosso espaço e éramos os líderes em vendagens. Demitido por ter tido a coragem de denunciar um juiz eleitoral amigo do atual presidente do Tribunal de Justiça do Estado e, então, meu colega de redação, em plena campanha eleitoral, só voltaria ao Jornal de Hoje em meados de 1987. Ali te encontrei no cargo que eu antes havia ocupado. Fiquei orgulhoso de tua ascensão e do espaço que havias conquistado. Fizemos greves, lideramos nossos colegas que não tinham o mesmo cacife pra peitar diretores. Fomos ameaçados, sofremos todos os tipos de pressão e resistimos.

Temos pouco em comum. Eu sou bonito e você é feio, eu tenho uma altura média e você é baixo. Sou meio gordo e você tem um perfil menos redondo. Sou comedido nos gestos e na forma de me comunicar. Você é mais expansivo e brilhante orador. Você é culto e eu, um curioso. Sou explosivo e destemperado ante as injustiças, às vezes agressivo. Você é mais sóbrio e mais conciliador.

O que nos une, então, nessa amizade que já, já chega aos 20 anos? Nossa visão de mundo, tenho certeza! Nossa indignação que aprendemos com nossos pais, com nossos companheiros de redação. Com o dia-a-dia de nossa lida nas ruas como formadores de opinião, como editores, como colunistas do cotidiano e repórteres argutos de nosso tempo. Não tememos nada. Políticos, polícia, bandidos. Alguns, muitas vezes, no papel dos outros.

Diante de minha postura independente não há portas abertas para o meu trabalho. Não consigo emprego como jornalista. Mas não me arrependo de nada. Começaria tudo outra vez se fosse para encontrar tua pena e tua amizade, outra vez. Para te encontrar sentado à frente de um computador reescrevendo a História como ela merece ser contada e não como os homens a fazem. Era essa a nossa utopia em comum.

Se posso recomeçar lá, porque não o podes aqui? Esperarei por isso. Pela tua volta. O tempo que for necessário. Amo você, amigo.

 

Seja, então...

 

Sou uma manhã que grita por sol.

E se não há brilho algum em mim... 

Que seja, então, uma clave de sol. 

 

Sou uma tarde que clama pelo poente

E se meu entardecer já se decompõe...

Que seja, então, o meu crepúsculo!

 

Sou uma noite a procurar por estrelas!

E se não há em mim nenhum firmamento...

Que seja, então, uma estrela-do-mar

 

Sou uma madrugada a te procurar na solidão!

E se tu não és o corpo na minha cama...

Que seja, então, eterna,  essa ilusão...

 

 

Rorejar

 

alma plena

refaz esperanças

se faz sedução

 a consumir desejos

despertar paixões

a rabiscar sonhos

em gotas de orvalho

que brotam do corpo

descem acariciando

a pele sedenta de amor

e deságuam

em doces cascatas

a banhar seu leito

inverter conceitos

desfazer preconceitos

e surgir, outra vez,

serena, a rorejar

 

(Para Rô, amiga especial, que tantas vezes me emocionou

e a quem sou grato por isso e muito mais. Te amo, menina!)   

                                                                      www.escondidasnanet.zip.net

 

                                                     Barracão de zinco

 

         Era um homem singular. Eu sei que todos vão dizer a mesma coisa. “Teu amor te faz dizer isso”, dirão. Talvez, talvez. Há tantas histórias parecidas com a desse filho de pescador que nada mais pode comover. Órfão de mãe aos 4ª anos foi, garoto pobre, entregador de encomendas de uma loja de tecidos. Estudou só até o 4º ano do antigo primário. Abandonou a escola para trabalhar. “Igual a milhões de sua geração e de um estado pobre como o seu, Regis”, contestarão uns. É verdade, igual a milhões.

         O amor à leitura o tornaria um dos mais brilhantes tribunos de sua geração. Sua oratória impecável e sem um único erro gramatical o levaria a, primeiro, enveredar pela política trabalhista, tornando-se um dos mais jovens líderes sindicais do Brasil no conturbado pós-guerra. A política sindical o levaria à política partidária. “Inevitável”, dirão ainda. Mas ser líder sindical e socialista num país militarizado; e partidário disfarçado do nazismo era uma temeridade. Ser político contra os esquemas coronelistas que imperavam no Brasil e principalmente no Nordeste, não era, certamente, algo comum. “Mas também nada tinha de extraordinário”, replicarão.

         Virou jornalista brilhante e fecundo. Formou trincheira com líderes nacionais em defesa dos trabalhadores da estiva, do comércio, da lavoura, das fábricas de algodão e medicamentos. Foi perseguido e ameaçado todos os dias de sua militância. Também, nada de diferente. Afinal, defender trabalhador é perigoso até mesmo num governo trabalhista como o de hoje. Que o diga a senadora Heloísa Helena...

         Elegeu-se deputado estadual. Combateu corruptos e governantes ladrões que desde então infestavam os palácios suntuosos de sua terra miserável. Por eles foi entregue à escória que se locupletou do país desde a instalação dos anos de chumbo da Ditadura Militar. Em troca de seu pescoço e de outros importantes líderes de esquerda, livraram as cabeças dos Barrabás de nossa política. “Então, foi um Cristo?”, perguntarão vocês entre irônicos e horrorizados com tal heresia. “Não” – responderei -, apenas os outros é que eram ladrões”. E ele foi crucificado à moda da ditadura: foi preso, cassado, torturado psicologicamente e devolvido a uma família unida, mas em frangalhos.

         E como amou essa família! Viveu dela e para ela. Cassado e sem emprego montou uma banca de revistas para sustentar os sete filhos e a mulher digna e única. É verdade, o deputado foi vender revistas numa banca. E tirou seu sustento dali. Ora revezando com os filhos, ora com a mulher, em horários que invariavelmente começavam as sete da manhã e se estendiam às 7 da noite. Sábados e domingo, inclusive.

         O maior prazer de sua vida era fazer festa de aniversário para os filhos. Os sete. Amou cada um com tal intensidade como se cada um fosse único. Chorava de tristeza com nos momentos tristes. Chorava de emoção com as vitórias. Nada, nem ninguém, o fazia deixar de chorar com a chegada de cada neto. Era emoção pura. E fazia festa. Uma pra cada um. Sete meses por ano. E mais o dele e o da esposa digna e única. E mais o Dia das Mães. E outra festa no Dia dos Pais. E festa de carnaval, natal, páscoa. E festa de aniversário de cada neto. E tome festa, e tome festa. Era seu jeito de tê-los por perto. Fazendo festa!

         Eu lembro desse homem todos os dias. Desde que um tumor no pulmão derrotou o homem que a todos parecia invencível. Hoje, no Dia dos Pais, uma vez mais vamos nos reunir em torno de uma mesa – assim que ele gostava -, vamos rezar a oração que o Pai nos ensinou. E agradecer por esse homem singular que para minha sorte e felicidade, foi meu pai: Manoel Vera Cruz Ribeiro Marques. Alguém discorda?

           PS: Ah, o que o título tem a ver com isso? Barracão de Zinco era o nome da música que ele mais amava. Mesmo nos momentos mais difíceis ele a trazia nos lábios.

Desejos

 

Tocas a minha quietude

com o gume mais afiado,

desafiando meu desejo

sou mais que festa

sou teu num lampejo

me revolve a alma

me debulha e me fere

como a ponta da agulha

sou lufadas de ventos alísios

onde, insepultos, encerras

teus desejos e quimeras

e na minha imaginação asséptica

tua língua viceja e lacera

todas a minhas tensões e limites

sou teu poeta de versos desnudos

és minha poesia inconclusa

Você me quer e me assusta

me invade a alma

despe meus textos

inverte segredos

fareja meu cheiro

e, em êxtase,

rompe meus diques

destrói minhas amarras

e, serenados medos

me entrego

sem óbices

 

            Sou dela. Ela é minha

Quando a vi pela primeira vez disse pra mim mesmo que aquela era a mulher da minha vida. Disse-lhe isso na primeira oportunidade que tive. Ela apenas sorriu. Com aquele sorriso que me provocou naquela hora e até hoje me provoca. Eu a queria. Quase obsessivamente. Sorria com os olhos, como um anjo. Caminhava com passos firmes e sensuais. Seu rosto trazia certa sombra de tristeza, mas havia nele Vida. Muita vida. Loura, alta, tinha uma beleza rara. Mas não passava de uma menina naquelas formas provocantes.

E ficamos a namorar com olhares ousados, com o roçar de nossas mãos, com os nossos sorrisos tímidos e com a certeza que nunca nos pertenceríamos. Eu estava a seis meses de me casar com outra.

Durante os meses seguidos nos encontrávamos às escondidas. Só nós acreditávamos que mantínhamos aquele amor em segredo. Ele estava impregnado em nós. Aflorava à nossa pele e nos delatava. Todos percebiam. Era cristalino, mas nós dois acreditávamos que era um segredo só nosso. 

Não tive coragem de romper com o passado e tomar o novo curso da minha vida. Casei. Um erro. Mais um, de tantos que cometi. Dois anos depois não havia mais casamento e o amor por ela era apenas uma lembrança guardada em algum lugar do peito.

Uma noite, ia com amigos ao show “Emoções”, de Roberto Carlos. Ao passar perto de sua casa vi sua silhueta delineada à contraluz. Naquela noite cantei “Emoções” e reembalei todos os sonhos cantados tantas vezes com ela nas canções do Rei. Não havia dúvida: eu era dela e ela era minha. Estava escrito nas estrelas, nos pergaminhos, nos alfarrábios, nas páginas tortas do Destino.

Na noite seguinte eu a procurei em sua casa. Inevitável o reencontro. Inevitável o reascender daquela chama. Agora não havia mais alianças, compromissos, barreiras. Eu era dela. Ela era minha. E fui dela naquela noite e ela foi minha. E todas as emoções foram poucas para aplacar nossa sede de amar. Quando a manhã azul nos encontrou estávamos na praia. Olhávamos juntos o leve bailado das ondas. Olhávamos na mesma direção. Em direção ao sol que surgia no horizonte e em nossas vidas. O novo sol de nossas vidas.

Unimos nossas vidas. Dura vida. Mas marcadas por poesia, romance, emoções. Muitas emoções, como diria o Rei.

Dois filhos, jóias de nossa História de Amor – pedras buriladas com tanto esmero e amor pelo Supremo Arquiteto do Universo, que mal consigo transformar em atos tamanho amor que lhes dedico. Nós somos deles. Eles são nossos. Nasceram de mim e dela. E há tanto amor nesse ato de ser pai e mãe que quase me convenço que somos únicos nessa forma de amar. 

Um dia vão partir. Serão donos de suas vidas. Mas serão sempre nossos. Ad Eternum.

Minha vida se transformou. Cometi erros. Muitos erros. Mas hoje decidi refazer as minhas emoções. Refazer minha vida. Consertar os erros.  Sei que cicatrizes hão de ficar. Sei que ainda vão ficar mágoas. Mas não posso ter medo! Não me cabe aqui ter medo. Essas cicatrizes também vão desaparecer.

Quero-a! Como da primeira vez! Afinal, passados vinte anos, sou dela, e ela é minha. Como na primeira vez que nos vimos. Nosso amor há de se fortalecer outra vez e virar novas páginas de muitos mais anos: 20..., 30..., 40..., 50....

Afinal, sou dela! E ela é minha. Ela é minha mulher, Neusa. Pra sempre! 

Reencontro

 

Meu canto pousou, outra vez, suave

como asas de gaivotas, serenas

e volto a olhar teus olhos e sorrir

estou de volta pra ti

estás de volta pra mim

sou tua ave, tua face, tua prece

tu és minha pena, minha festa

somos, eu e tu, cúmplices

no louco ato de cometer a Vida

no ritmo alucinante

desse estranho bailado

de cantos celestiais embalado

e doces cristais brotam

das janelas da alma,

em cascatas,

a perpetuar nosso reencontro

Tu e eu, eu e tu, poesia

[ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SAO LUIS, VILA IVAR SALDANHA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese
MSN - So para os amigos.
Visitante número: