I

Chuvas de verão

 

Hoje

acordei

a chuva

ela chegou

no momento

exato

que meu sonho

se desfez

desolado,

vi que eram lágrimas

que molhavam

o meu travesseiro

 

II

Confissão

 

Confesso, menti!

É somente a ti que amo

Retiro tudo o que disse antes

Não desapareça.

Pois essa bruma densa

Há de se dissipar

E voltarei

Quando já não puder mais chorar

 

 

                                   

A senha      

Eles ficaram se olhando em silêncio. E aquele olhar parecia durar uma eternidade. Nunca ele a desejara tanto. A consumia com os olhos. Ela sentia aqueles olhos como dados flamejantes e lhe perfurar a alma, rasgar as entranhas e se apossar dela mais uma vez. Haviam acabado de se amar. Talvez por isso aquele olhar de desejo incontido. Talvez por isso aquela vontade insaciada. Aquela loucura pra começar tudo outra vez. Talvez, por isso, ela estava tão entregue àquele homem.

         Ela sabia que era o último encontro. Nunca mais haveriam de se encontrar. Eram amantes, mas naquela noite ela havia decidido dar um basta àquela situação. Não queria mais as sobras de um amor que ela sabia que nunca lhe pertenceria. Sofria com aquilo. Com o amor guardado numa suíte de luxo de um motel. Não queria mais os filmes de quinta categoria que eles sempre assistiam no quarto cheirando a lavanda e a sabonete barato. Há muito estava farta daquela situação.

         Ele era casado e ela era a outra. Ela sabia desde o começo que era mais uma aventura dele. Foram colegas de faculdade e conhecia sua fama de amante infiel. Mas ela o desejava desde aqueles tempos. Queria conhecer o macho rude que as amigas diziam, rindo com malícia, que ele era na cama. Mas ele sempre a evitara na faculdade. Ela era, para ele, somente a amiga preferida. Se ela o desejava, ele a queria apenas como amiga. Nunca pensara nela como mulher.

         O destino os colocara frente a frente outra vez quando ele, poeta de parcos dotes e quase nenhum centavo, fora levar a filha única para aprender dança numa academia de balé. Desde que ela abandonara a faculdade para se dedicar à dança e ao teatro ele nunca mais a vira.

         O reencontro reacendeu nela o antigo desejo. Desta vez não perderia a chance. Mãe de dois meninos, bailarina, equilibrava-se sobre sapatilhas corroídas pelo tempo de um casamento que sobrevivia de aparências. A mulher que existia nela ainda pulsava. Ela o queria. Como nos tempos da faculdade. O corpo moldado durante anos nos palcos estava vivo, maduro e belo. Ela iria saciar seu desejo. Custasse o que custasse.

Isso fora há três anos. E agora ela estava ali. Não suportava mais viver aquela farsa. Ela o amava. Mas ele jamais deixaria a mulher por causa dela.          

Então, uma pequena lágrima rolou teimosa pela face esquerda, riscou a boca borrada de batom vermelho, e, suicida, despencou em direção ao colo, se aninhando sobre o bico do seio ainda intumescido.

Ele sabia que precisava ir. Mas, antes que lhe dissesse o último adeus, sua língua deu o bote, como uma serpente, capturou a pequena abelha de cristal que repousava em seu seio.

         Foi a senha para o recomeço. 

 

Lobotomia

 

 

a letra aflora à fala

reinventa os sentidos 

suga segredos ouvidos

 e o verso deflora e cala

para que quatro sejas

quatro línguas e bocas

te engolindo em fúria louca

na contramão versejas

Sendo caça e caçadora

és mundana e divinal

escondes em ti o mal

qual boceta de Pandora

sai toda palavra do peito

e com precisão cirúrgica

rasga a mente túrgida

lacerando pré-conceitos

teu olor de cio canino

desnuda  todos desejos

boca rútila devora o beijo

quinta-essência do eu felino

 

 

 

Ganhei muitos amigos na net. Muitos vieram pq me encontraram ocasionalmente ou pq estive antes conhecendo sua arte. A busca do UOl me levou à Loba. E Loba levou a mim a maioria dos amigos que fiz aqui. Não sei se a amo ou a detesto por isso. O texto acima era um velho desafio meu para homenagear essa mulher fantástica, que é polêmica, mas que como eu, vive nos extremos. Não é, nem de perto, o que queria dizer a essa Loba. Nem se aproxima do que ela merece. Mas é só o que minha resumida capacidade intectual pôde produzir. Com ela – assim como eu -, não há meio termo. Ou se gosta ou se detesta. E, apesar de brigarmos muito, gosto dela. Muito. Beijos, Lobinha.

Ângelus

 

O telefone voltou a tocar naquele fim de tarde como tocara, insistente, todos os outros dias, sempre na hora do Ângelus. Ele sabia que era ela. Era a quinta vez que a campainha do aparelho soara naquela sexta-feira. Sabia que, ao atender, ouviria sua respiração ofegante e, pela enésima vez, Elton John cantando o hit do momento daquele verão de 1975: “Goodbye yellow brick road”. Há semanas ela o perseguia. Sempre com a mesma respiração ofegante e a mesma música ao telefone. Há vários dias não atendia à chamada. Desta vez a mão se aproximou lentamente do aparelho. Precisava dar um basta àquela situação. Não a queria. Definitivamente. Nem com todo o dinheiro do mundo. E ela – ele sabia – parecia ter todo o dinheiro do mundo.

 - Alô? Do outro lado o silêncio. Esperou. . .

 - Alô? Repetiu. Desta vez a música não tocou e nem ouviu a respiração ofegante dela que a ele sempre sugeria um orgasmo.

 Ao contrário. Do outro lado da linha ouviu sua voz de forte sotaque carioca. Serena, sensual.

- Tudo bem?

Ele estremeceu. Não havia se preparado para ouvir a voz dela. Não naquela hora. Ficou em silêncio.

- Tudo bem? A pergunta repetida o desarmara definitivamente. Era ele agora quem ofegava. Não no ritmo de clímax sexual como sempre ouvira do outro lado da linha. Ele ofegava nervosamente.

Daria tudo do pouco que tinha na vida para que Elton John entrasse cantando aquele trecho que lhe já era tão familiar e que o deixava nervoso: “...so goodbye yellow brick road”. E, então, aproveitaria e fugiria correndo por aquela estranha estrada de tijolos amarelos. Nada aconteceu.

Ângela era a mulher mais linda que jamais conhecera. E estivera sempre ali. Na quadra em frente. Mas ele a odiava. Ou pelo menos pensava que odiava. A via sempre cercada de homens elegantes e ricos como ela. Sua risada do outro lado da calçada era perturbadora. Ouvia sua voz cheia de esses até mesmo quando colocava o LP de Pink Floyd no último volume para abafar as conversas vindas do deck da piscina da mansão em frente à sua casa, onde ela morava. Não era um timbre estridente. Era irritantemente sensual. Ele sabia disso. E se incomodava. Ouvir sua voz era prova que ela existia. E ele queria que ela sumisse pra sempre. Com todos seus amigos elegantes em seus carros vistosos. Ele era pobre e ela sempre o ignorara.

Tudo isso passara pela sua cabeça naquela fração de segundo enquanto a ouvia repetir seu nome.  Timidamente, como se a voz viesse de outra pessoa, só conseguiu abortar, como num parto dolorido um “Oi?”, e se preparou para ouvir a gargalhada dela, que antes de ser dita já feria seu tímpano e lacerava seu peito.

- Eu te amo. Não faz isso comigo! Não me ignora!. Porque me odeia?, foi o que ouviu dela.

Jamais imaginara ouvir isso. Não a odiava. Agora sabia que a amava desde o dia que chegou àquela rua. E agora, ele a ouvia pedir o seu amor. Mal a interrogação foi adicionada ao final da última palavra e ele atravessou a rua que os separava, correndo ao seu encontro. Enquanto se beijavam, na vitrola da mansão, sem som, ainda rodava o velho vinil de Elton John que ela havia colocado para ele ouvir mais uma vez antes de lhe ligar. Ele não quis ouvir daquela vez. Foi aí que ela decidiu lhe falar. Sorte de ambos.

Peço desculpas aos meus amigos. Estou atarefado com trabalho. Estive viajando e devo voltar a viajar hoje outra vez. Mas quero estar de volta amanhã e, então, vou poder visitar todos e responder cada carinho de cada comentário. E prometo postar algo novo. Beijos, mas trabalhar é preciso...

VENDETA

 

Quando teu corpo exaurido

em súplica lasciva

se abandonar aos meus instintos

quando tua boca rubra e ávida

num gesto inútil

buscar os meus beijos indecentes

quando a febre de tua libido

num calor incandescente

se aplacar nas minhas gotas de suor

quando implorares em desespero

num apelo dramático

por meus favores de amante

quando saciares a sede de luxúria

que te consome as entranhas

em minha alcova revolvida

quando, então, implorares meu amor

e num grito de desespero clamares

por mim na madrugada silenciosa

vou escarnecer sobre o espectro insepulto

de tua soberba e teu orgulho humilhado

te tomarei em meus braços e músculos

e doce será minha vingança por te amar

A poeta

 Todas as tardes ela o via passar em frente à sua casa. Sentada no banco do jardim, remexia velhos papéis guardados na caixa retangular de papelão, enquanto esperava a passagem dele. O cumprimentava com um oi sussurrado. Em troca, recebia o mesmo sorriso tímido de sempre. Sabia que se dependesse dele jamais passariam disso. Resolveu esperá-lo no portão.

Quando a primeira estrela surgiu na noite clara de verão ela já estava postada no portão do pequeno jardim, cuja única roseira mal escondia seu belo corpo de mulher. Sonhava pelo momento de lhe poder falar. Quando ele se aproximou, pediu o isqueiro. Tateou o bolso em busca do objeto. Acendeu-lhe o cigarro e ela tossiu forte. Estava tentando deixar de fumar, dissera-lhe então. Naquela hora um pequeno papel escapou-lhe de entre os dedos e caiu entre a roseira sem que ambos percebessem.

A madrugada chegara quando se levantou para ir embora. Antes, quis saber o que continha a caixa de papelão. Ela prometeu que mostraria a ele no dia seguinte. Era mais um motivo para revê-lo.

Quando a tarde se fez noite ela estava de pé no portão, com a velha caixa guarda-papéis. Mostrou a ele todo o conteúdo. Eram versos que ela compusera para ele naquelas tardes em que se encantava com seu sorriso tímido. Todos, dedicados a ele. Mas dissera que eram tirados de um livro. E ela ficou a noite a ler cada poema. Ele, sem saber que os versos eram pra ele.

Nas semanas seguintes ela o esperou todas as tardes. E cada vez que ele passava lhe compunha versos. E quando ele voltava, ela lia cada um, baixinho. Quase num sussurro. Estavam enamorados. Mas nunca se disseram isso. Nunca um beijo. Apenas sorrisos cúmplices e toques suaves de mãos na hora de trocar os poemas. A poeta amava o homem do sorriso tímido e voz baixa. Ele a amava com sua alma poética.

Uma tarde, ela não estava lá. Não teve coragem de perguntar por ela. Todas as noites ele voltava pra casa na esperança de revê-la com sua velha caixa de papelão que guardava versos.  Muitos dias se passaram até que ele viu seu vulto se escondendo por trás da roseira. Um lenço escondia a cabeça sem a cabeleira loura e à luz da lua seu corpo refletido era apenas um arremedo da mulher que ele amava.

No dia seguinte ela morreu. Seus pulmões não haviam resistido aos estragos provocados pelo cigarro. Havia deixado um bilhete aos pais pedindo que entregassem a ele a velha caixa de papelão.

Sentou-se no banco do jardim e foi relendo pela cada poema que ela lhe fizera. Tirou do bolso o mesmo isqueiro que lhe acendera o cigarro da primeira vez que se falaram. Acendeu a chama e deixou queimar a caixa com todos os versos. Não havia mais com quem repartir aquela emoção. Então, jogou o isqueiro longe e caminhou em direção à roseira. Uma lágrima desceu, apagando de vez o sorriso tímido que ela tanto amara. Então, junto à roseira, encontrou aquele papel perdido na primeira noite. E leu:

“Talvez um dia te fale do meu amar

Talvez a coragem que falta em mim

Brote em meio ao nosso lindo jardim

Onde te espero a cada noite de luar

E se teça em cada pétala de cada rosa

A doce esperança de eu me curar

Mas sei que a morte que em mim brota

Há de perpetuar esse meu amar”

Louvação a São Luís

 

 

8 de setembro é o dia dos anos de minha cidade. E toda festa que eu fizer, todo o júbilo que eu tiver serão insignificantes para cantar meu amor a São Luís. Aqui nasci numa época onde viver era uma arte e sobreviver um desafio a ser vencido a cada dia. São Luís tinha então pouco mais de 100 mil habitantes. Hoje, somos um milhão de brasileiros – a maioria nordestinos fugidos da seca que aqui vieram em busca de novas oportunidades e ajudaram a construir esta cidade. Mas somos paulistas, mineiros, gaúchos, paranaenses, catarinenses, paraenses, goianos e gente de todos os cantos que buscam a brisa fresca de São Luís para ouvir o vibrar das toadas do nosso inigualável bumba-meu-boi.

São Luís nasceu francesa:pelas mãos do corsário Daniel de LaTouche – Senhor de La Ravardière, que aqui veio fundar a França Equinocial. Reza a lenda que, exaustos e sem munição, os soldados portugueses que vieram expulsar os franceses e defender a unidade das terras brasileiras estavam prestes a se render, quando Nossa Senhora da Vitória lhes teria aparecido e, transformando areia em pólvora, os levado à vitória. São Luís também seria alvo da ambição dos holandeses, que aqui aportaram, deixaram suas marcas e também foram expulsos pelos portugueses.

São Luís é bela em tudo. Seu casario colonial é o maior acervo português fora da Europa. Seus telhados são uma atração à parte. Sacadas de ferro se debruçam das janelas sobre o passado. O antigo e o novo se unem por duas pontes que cruzam o rio Anil. De um lado, a História; do outro, ao lado das praias, a arquitetura moderna dos arranha-céus e das belas avenidas que levam a caminhos que mostram que aqui o futuro chegou.   

O vasto anel de areias brancas que circundam a ilha com dezenas e dezenas de lindas praias é orgulho do gentio destas terras. O ilhéu, mais orgulho ainda tem de dois títulos: um, o de Athenas Brasileira, graças à profusão de poetas que se cruzam em cada beco, em cada esquina e em cada ladeira desta Ilha Rebelde. O outro, mais recente, foi concedido pela Unesco e considera oficialmente São Luís como Patrimônio Cultural da Humanidade.

São Luís é terra de gente ilustre. De Gonçalves Dias - o maior poeta indigenista do Brasil, autor de Canção do Exílio - a Souzândrade, do antológico Guesa Errante, passando por Catulo da Paixão Cearense, cantor de Luar dos Sertões, a cidade é berço da marrom Alcione, Zeca Baleiro, Raimundo Corrêa, Arthur Azevedo, Joazinho Trinta, Josué Montello, José Sarney e um número incalculável de poetas, jornalistas e artistas que enfeitam o colar de brasileiros de grande expressão.

Mas é de um maranhense que tive o orgulho de conhecer e admirar a maior homenagem já feita à minha cidade. José Tribuzzi Pinheiro Gomes, ou, simplesmente Bandeira Tribuzzi, poeta inigualável, jornalista e músico, foi amigo de meu pai nas redações de vários jornais e com ele foi preso durante a ditadura militar. Tribuzzi morreu aos 52 anos, exatamente mo dia do aniversário de São Luís. Havia composto, anos antes, aquele que seria oficialmente o hino de sua cidade.

(Abaixo, o hino de minha cidade)

 

Louvação a São Luís        

Oh, minha cidade!

Deixa-me viver

Que eu quero aprender

Tua poesia

Sol e maresia

Lendas e mistérios

Luar das serestas

E o azul de teus dias

Quero ouvir à noite

Tambores do Congo

Gemendo e chorando

Dores e saudade

A evocar martírios

Lágrimas e açoites

Que floriram claros

Sóis da Liberdade

Quero ver na ruas

Fontes, cantarias

Torres e mirantes

Igrejas, sobrados

Nas lentas ladeiras

Que sobem angústias

Sonhos do futuro

Glórias do passado

Nossos corpos

 

Minhas mãos

Ávidas e cálidas

Querem teu corpo

Ansioso e plácido

Minha boca

Mágica e úmida

Quer teu corpo

Maduro e frágil

Minha língua

Ardente e fálica

Quer teu corpo

Doce e ácido

Meu corpo

Retesado e lúdico

quer  teu corpo

Flexionado e alvo

Meu corpo

Num sopro

Se altera

E a febre

Revela

sensações

Meu corpo

Te deseja

E, só,

flameja

Meu corpo

Em frêmito

Quer teu corpo

Que açoita

meu desejo

 

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BRASIL, Nordeste, SAO LUIS, VILA IVAR SALDANHA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese
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