
Adeus
Saio hoje da tua vida
Levo no corpo o aroma de teu corpo
Na boca levo o hálito de tua boca
Não deixo lágrimas, levo-as comigo
Não levo dor, deixo-as contigo
E meus gestos contidos silenciarão
Não poderia te falar de tal amor
Que beira a insensatez da paixão
Não poderia ter dar meu corpo débil
Açoitado pelo mal e pela dor
Não poderia te dar meu sorriso frágil
Corroído pela doçura no meu sangue
Não poderia te dar meus músculos
Já não atendem aos teus apelos
Não guardarei nada comigo
Não suportaria te encontrar em outro corpo
Nem imaginar o teu em outros braços
Não quero ouvir tuas palavras de adeus
Nem as canções que te dediquei
Nem os versos que te fiz
Nem as madrugadas que te amei
Os sonhos que ousamos sonhar
Os planos pras noites de inverno
Do aconchego sob os lençóis
Dos beijos não dados
Nada levo, só essas lágrimas,
Que docemente caem de meus olhos
Em busca de teus olhos

Submissão
Diante de ti...
Dispo minhas máscaras de porcelana
Assumo minha verdadeira face
Desnudo minha fantasia de bacana
Diante de ti...
Quedo-me, teu servo, em contrição
Curvo minh’alma de aço e vidro
Revelo toda a minha submissão
Diante de ti...
Sou andarilho sem rumo e sem norte
Sou lâmina de um só gume afiado
Do cutelo que prepara a minha morte
Diante de ti...
Sou eu sempre eu mesmo
Nu, frágil, dócil, sereno
Um amante coração opresso
Diante de ti...
O que sou?...
De Arafat e de Bush
(Nosso silêncio é cúmplice...)
Fosse eu remanescente de uma comunidade quilombola e todos diriam que sofro de banzo, mas a melancolia que me domina atende por um nome mais prosaico: desencanto. A guinada à extrema-direita que o mundo, perplexo, assistiu nos Estados Unidos e a morte de Yasser Arafat transtornaram minha alma.
Então é assim que a maior democracia do planeta resolve seus problemas internos? Assassinando gerações inteiras que só querem a liberdade de seu chão? Minha perplexidade é maior porque não vi aqui senão pequenos muxoxos de uns e outros. Não vi ninguém indignado, realmente indignado. A omissão da maioria é digna de nós mesmos, pequenos atores de uma comédia trágica.
Parece que nada nos importa. O mundo se molda à força de um vendaval conservador e nós que dizemos que lutamos para mudar o mundo, que fizemos a geração de 60; nós que escrevemos palavras e fazemos gestos opacos de rebeldia, assistimos à tudo na geral, junto à ralé.
A morte de Arafat de maneira estranha, rápida e suspeita mostra que há muito mais por vir. A subjugação pura e simples do bravo povo palestino - sob os olhares complacentes do mundo árabe e pelo Ocidente permissivo e cúmplice -, pelas armas atômicas de Israel e pelo Grande Satã do norte, revela um sinal aterrador. Hoje, em nenhum lugar, mais nenhuma nação é livre e soberana. Quem não lê pela cartilha colonialista do carcomido sistema capitalista será invadido, terá seu governo despojado e se transformará em mais um satélite do Big Brother americano.
O Afeganistão capitulou. O Iraque está vivendo uma insidiosa guerra civil financiada por bush (assim mesmo, minúsculo) e seus meninos donos das indústrias de petróleo. E simplesmente cruzamos os braços. Não gritamos, não esperneamos. Morremos como peru de Natal...de véspera.
O Grande Satã se divide sobre quem será a próxima vítima. O Irã e sua teocracia xiita ou a Coréia com suas armas nucleares? Tanto faz. Logo uma míssil israelense (o chamado povo de Deus – um neologismo cínico e perverso) cairá sobre as armas atômicas dos aiatolás do Irã ou uma “missão de paz” da escrota ONU vai atacar o ditador coreano e implantar mais uma colônia na Ásia conflagrada.
E depois, qual será a vítima? Cuba de Fidel? A Colômbia e sua potência criminosa do ópio e da cocaína. A Bolívia?, hoje mais um pequeno satélite americano? Ou será a Venezuela do trêfego Hugo Chávez? Quem sabe, então, os olhos da águia americana estejam voltados para os nossos quintais? A base aeroespacial de Alcântara no Maranhão é ambicionada de forma cativa pelos nossos grandes "irmãos" do norte. Ou o objetivo será nossa Amazônia “internacionalizada”?
Não importa quem será a próxima vítima. Isso é bem mais sério que uma novela global. Chega de cinismo e pedir em nome de uma paz utópica o fim do nosso programa nuclear. Precisamos ter a nossa bomba, sim! Urge que tenhamos nossos mecanismos de defesa. O programa Guerra nas Estrelas, concebido por bush e que vai criar uma guarda-chuva contra mísseis intercontinentais nos Estados Unidos, continua a consumir bilhões de dólares todos os anos e em breve estará ativo. Eles podem se proteger. Nós, não?
Judeus e americanos são todos da mesma casta. Sabões do mesmo sebo...
Nosso silêncio é aterrador... dói mais ouvi-lo que à surda repetição de bombas caindo sobre Falluja.
Matar Saddam ou Arafat pode ser fácil pra um ditador universal como bush e seus aliados judeus comandados pelo assassino sanguinário que atende pelo nome de Ariel Sharon, condenado na Holanda por crime contra a humanidade. Mas se nos levantarmos contra a sanha assassina do alcoólatra que domina a maior nação do mundo, poderemos morrer com a consciência limpa. Morrer em combate, mesmo que pela palavra, é melhor que morrer pela omissão ou como um covarde que foge do campo de batalha.
Nossos filhos e netos nos cobrarão isso. Nosso silêncio é cúmplice.
Último encontro.
Eu a encontrei num momento de distração dela. Ia apressada, atravessando uma encruzilhada qualquer quando a vi. Não me viu, mas quando a chamei ela demorou a me reconhecer. Nosso diálogo foi triste e rápido.
- Olá, por onde andou?
- Mas... Quem é você?
- Não lembra de mim mesmo? Eu te vi quando era pequenino e tu já eras bela, a freqüentar nossa casa. Depois, quando mal aprendi a falar teu nome você sumiu...
- Ah!, sei... tu és...
- Exatamente! Eu mesmo. Aquele a quem tu dissestes que valeria a crescer e que um mundo inteiro de coisas boas me esperava. Acreditei em ti...
- E?
- Porque me abandonastes tão cedo? Eu ainda era criança... Que mal te fiz???
- Não, não é verdade... Nunca te abandonei... Foi você quem sumiu... Eu te procurei por todos os lugares.
- Mas... mas...
- É verdade. Naquela manhã que tudo mudou na tua vida eu apenas me atrasei um pouco. Quando cheguei, havias partido...
- Mas eu continuava lá. Não sumi... Só fiquei triste. Acho que por isso não me reconhecestes. E a cada dia que passava mais triste eu ficava. E em meu rosto a tristeza moldou uma máscara. Talvez, por isso, nunca mais me achastes... Mas eu nunca me fui... Juro!
Tenho andado à tua procura desde aquele dia. Em igrejas, em casa, no mar... Te procurei tanto que perdi a esperança de um dia te reencontrar...
- Mas agora estou aqui outra vez... Podemos...
- Não há mais tempo pra isso... A desesperança me venceu. Não acredito mais em ti nem
- Não é possível... Você... Espere... Volte aqui. Onde você vai?
- ...
- Espere. Por favor... Sempre é tempo pra se tentar...
- Não é verdade. A felicidade só bate uma vez à nossa porta. Cabe a nós não deixá-la escapar. Adeus!
Depois de me despedir ainda a vi sumir por uma vereda arborizada. E a Felicidade nunca voltou....

Tatuagem
Eu vi a manhã mais bela nascer
Eu vi o entardecer tingir
de vermelho o céu azul
Era infinitamente lindo!
Eu escutei a mais simples e bela
De todas as canções compostas
Eu vi a natureza explodindo em cor
Achava que havia visto toda a beleza do mundo
Até ver teu sorriso
Naquela tarde, próxima do crepúsculo, caminhei ao seu lado como sempre fazia nas tardes mornas de verão de nossa cidadezinha. Trocávamos juras de amor eterno, sem nos fitarmos. Eu quase não via seu rosto. Meus olhos de quase-menino só viam seus olhos de uma cor indefinida e de uma tristeza incômoda e definitivamente imprópria para uma menina de 15 anos.
Subíamos a pequena inclinação da avenida que levava ao grande casarão branco rodeado por um bosque que quase escondia o terraço por onde ela logo desapareceria. Foi ali que a retive. Com um toque dos dedos fiz com que parasse sob a velha amendoeira. Parecia que era uma despedida. Era uma despedida. Depois de 9 meses juntos e finalmente chegara suas férias. Só nos reencontraríamos na volta ás aulas, em fevereiro do ano seguinte. Então, criei coragem e a beijei. Primeiro, suavemente. Em seguida a encostei de encontro ao tronco da árvore e a beijei com desejo. Pedi a Deus que abençoasse aquele momento e que ele nunca mais terminasse.
Ela sorriu. E seu sorriso gravou em minha alma uma tatuagem indelével.
A noite havia chegado. E ela se afastou. Aos poucos foi caminhando em direção ao casarão branco e pela última vez desapareceu pelo portão do terraço que se escondia por trás do bosque. Nunca mais a vi.
Ontem, por acaso, a vi saindo de uma igreja evangélica. O outono se perpetuara nela. As rugas denunciavam a idade que a tintura barata tentava esconder nos cabelos já grisalhos. A bela mulher que eu amei era só uma lembrança.
Lembrei do seu olhar triste e de cor indefinida. A tatuagem gravada na alma bailou sobre meu pensamento. E aquele sorriso era mais lindo que qualquer coisa que a terra inteira jamais produziu.
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