Eremita
Não sou a fortaleza que espera
do alto da montanha
o ataque definitivo da solidão
Nem o guerreiro medieval
fechado em armadura
guardado por um canhão
não sou o cavalo de Tróia
a esconder salteadores
à espera da invasão
não sou a águia que alça vôo
em busca de novas presas
para saciar minha ambição
Sou um velho eremita
à espera da esperança...
fugindo da minha solidão
Para vê-la se transformar,
um dia, quem sabe?
num bailado, uma festa
uma dança de salão...
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Não tenho tempo...
Eu não tenho tempo para viver
Para ver a manhã nascer
Nada mais é poesia
Já não digo “bom dia”
Uma a ovelha negra que desgarra
Qual o som de meu filho na guitarra?
Tenho pressa, muita pressa, toda pressa
A vida não faz concessões nem promessa
Ela me exige pressa, correria
Nem vejo os olhos de Maria
Não sinto a dor física, só moral
Minhas emoções me deixam animal
Todos os meus amores sumiram
Um a um, me consumiram
Penso que sou eu mesmo, de fato,
O fato mais importante do nosso ato
Na minha inútil vida, sou crepúsculo
Corro, grito, berro, pulo e gesticulo,
Ordeno, reordeno, obedeço
Sou sempre o meu recomeço
Sou filho da nova era
Instintivamente, fera
Não reconheço o sol, o sal, o mel,
O diabetes me consome açúcares e fel
A vida não é muito mais
Que uma tarde que se esvai
Eu preciso chorar, sangrar, sofrer
Para poder cantar, lavrar, querer
Na pressa de viver deixei cair, sem ver, a vida que guardei para mim
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