Estou aqui!

 

 

Não via a hora de ver...

Você chegar

Você sorrir

Você falar...

 

Não via a hora de ter

Você aqui

Você nos braços

Você sob os lençóis

 

Não via a hora de sentir

Você me beijar

Você me acariciar...

Você sussurrar

 

Agora estou aqui

Pronto a me abandonar

 

 

Às mulheres

 

Há muito eu queria homenagear minha filha, Rafaela, com quem vivi momentos difíceis nos últimos tempos. Ela agora trabalha como estagiária no jornal Veja Agora (www.jornalvejaagora.com.br), no qual eu sou Diretor de Redação.

Eu também queria prestar uma homenagem a todas as mulheres que escrevem e fazem dessa arte um cordão umbilical que alimenta sonhos.

Ontem, ela pediu que eu publicasse um artigo seu sobre o Dia Internacional da Mulher. Depois, no conselho editorial, o artigo virou o editorial do jornal. Se eu chorei? Claro! Mas eu queria mais. Então, resolvi publicar aqui o seu artigo. É minha justa homenagem a vocês.

 

Às mulheres de São Luís, que não são de Atenas*.

 (Rafaela Lima Marques)

 

 

Depois que o fogo engoliu Joana d’Arc, queimou vivas as operárias de uma fábrica que reivindicavam salário igual ao dos homens e transformou em cinzas sutiãs em praça pública, a água vem banhar o rosto das mulheres anônimas que, pouco a pouco, modificam o mundo com muita lágrima e suor.

Elas não se miram no exemplo das mulheres de Atenas: sabem que é preciso viver para encontrar a felicidade. Quando fustigadas, sim, elas choram, porque já aprenderam que chorar não é crime, e já têm se ocupado em ensinar isso aos homens, que hoje se permitem o mesmo.

Choram porque fazem uso dos sentimentos de uma forma que só elas sabem: não para condoer-se das dores do mundo e se abaterem com elas, mas para encorajar-lhes a mudança. Sim, as mulheres que não são de Atenas sabem que é preciso encorajar-se sempre e que não há tamanho que seja suficiente para guardar os sentimentos.

No entanto, não é por causa do choro que essas mulheres vêm convertendo o elemento fogo em elemento água. É por causa do suor. Tanto trabalho faz-lhes perceber que a vida pode ser moldada, do mesmo modo que as antigas artesãs gregas faziam com o mármore, mas dessa vez, para construir novas realidades.

Assim, dessa forma, as mulheres foram se apropriando dos costumes helênicos. Só que ao contrário. Elas não tiveram medo de falar, gritar, se impor. E quando sentiram que o discurso feminista estava perdendo a força, partiram para a prática.

Assim, subiram nos ônibus – não como cobradoras, mas como motoristas. Provaram ter competência para administrar sua própria casa, ao invés de esperar caladas pela volta do soldado que partiu. Disseram que queriam participar das decisões que modificariam suas vidas e conquistaram o direito ao voto. Hoje, na América Latina, uma mulher é presidente do Chile.

Disseram que conseguiriam equiparação salarial – e apesar das diferenças que ainda existem, conseguiram muitas vezes salários maiores. Comandam portos, empresas, cidades... E hoje não há um só lugar onde elas não estejam.

Ao contrário das mulheres de Atenas, elas têm defeitos e qualidades, mas se preocupam antes de tudo em tentar... E sabem que tentar é o primeiro passo para um possível acerto. Como há esperança, onde há fome, sofrimento e violência? Só sabe quem penetra o coração delas.  Elas continuam aninhando seus filhos da mesma forma que as atenienses, mas não mais o preparam para a guerra: hoje, os preparam para a felicidade.

Elas ainda fazem uso da delicadeza e da meiguice, mas sabem cada vez mais a hora de dizer não. A mulher de hoje não é a mulher moderna – é a mulher de todas as épocas, que aprendeu que não é ruim ser mulher. Não será mais preciso queimar sutiãs – nem ninguém mais irá para a fogueira acusada de bruxaria. Alegrem-se, mulheres! E mudem novamente o elemento da história: encham os pulmões de ar, tomem fôlego para continuar o longo caminho.

Ainda há muito que fazer para acabar com a violência contra a mulher, para dar mais espaços às negras, às pobres, às flageladas e esquecidas. Ainda há muito que denunciar quando se fala em abuso sexual, ainda há muito que mudar na cabeça das pessoas para que cada dia mais se possa inserir em cada recanto da sociedade o jeito feminino de lidar com os problemas – com esperança e muita força de vontade.

Ensinem aos seus filhos e filhas que sentimentos são mais necessários do que a força – façam com que eles percebam que competência e igualdade são importantes, mas que é preciso, antes de tudo, compreender e aceitar as diferenças. E então, não será preciso provar mais nada.

Só há uma coisa que as mulheres de hoje não devem fazer – é mirar-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas.

 

*Mulheres de Atenas é uma música de Chico Buarque.

 

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