A dor foi sempre muito presente em minha vida. Quantas vezes aqui chorei minhas dores e desfiei rosários de lamentações, sempre divisando muito próximo o ocaso da minha presença terrena. Nunca, entretanto, a dor física superou a emocional. Sempre relutei em falar do corpo, já que a alma transcendia em meus versos cheios de lamentos e sofrimento. Muito era da arte de poetar, mesmo sem crer nisso. Uma máscara que usei despudoradamente para falar de sentimentos, saudades e dores.
Hoje, minha dor não é fingimento nem faz parte de versos lamuriosos. É a dor física que castiga este meu corpo. O diabetes, esse mal terrível, com seus açúcares e féis, suga minhas carnes, músculos e nervos. Agora sei que não posso escapar do meu destino. Minha vida não me pertence mais e nem sei até quando (amanhã?) poderei estar aqui a escrever.
Há dois meses soube que era portador de polineuropatia diabética – uma doença que decorre do descontrole dos índices glicêmicos. Não que eu fosse um relaxado, um imbecil que desprezasse meu corpo e minha doença que há sete anos me corrói. Apenas não lhe dei a importância devida em face à estressante luta pela sobrevivência e para prover aqueles a quem dei vida - meus filhos Rafaela e Adriano – e àquela a quem uni meu destino e minha vida de forma indelével, minha companheira Neusa.
A polineuropatia atinge as extensões nervosas e é degenerativa. Ou seja, daqui a algum tempo minha capacidade locomotora poderá estar irremediavelmente comprometida, poderei ficar sem andar e terei dificuldade até mesmo para me alimentar.
Não tenho medo. Já disse inúmeras vezes que a morte não me assusta e que, às vezes, é pior seguir vivendo. Só não quero ser um estorvo para minha família. Não serei um fardo infeliz a lamuriar meu destino, mas já não buscarei a felicidade com a mesma intensidade que o fazia em meus versos.
Mudo tudo em mim a partir de agora. Encerro um ciclo de vida que não tem retorno. A poesia que brotava de mim e em mim murchou para sempre. Não quero gestos piedosos nem lágrimas em meu entorno. Não viverei para chorar.
A poesia que fiz, se servir a alguém, que dela se sirva, sem que por isso vá deixar de ser momentos de meus sentimentos.
Aos amigos que fiz e que deixei sem sequer deles me despedir, peço que continuem a fazer versos e contar história de amores e desamores. Eu, por mim, transformarei este espaço num diário para narrar o tempo que me resta. Com dignidade e amor ao próximo. Como sempre construí meu caminho.
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