Paz na Terra

E se faça em mim, ânsia nordestina
Força, sangue e terra Severina
Entre foices, bandeiras e preces
Fome latente que não esquece
Filhos lentos, esquálidos, vãos
Colhem o árido cacto-pão
Vicejam vermes em barriga febris
Lá não nascem flores nem colibris
Natimortos sonhos dessa gente
Brava brasileira gente indolente
Que não vê raiar o sol do novo dia
Mas, às seis, reza uma nova Ave-Maria
Num lugar próximo ao inferno
Onde Deus é só uma cruz de ferro

Não posso aceitar a estupidez humana.
Por isso hoje saí, como há muito não fazia, a vagar pela noite de minha cidade. Era dominado por uma angústia de quem não se reconhece mais na dor ou na falta de alegria. Na rua de casarões velhos e fétidos, com suas pedras de paralelepípedos mal distribuídos, saí em busca de um sinal de vida. Encontrei uma prostituta, bêbada e já não tão jovem, a me oferecer uma noite de amor e prazer por dez, vinte reais.
Tem gente, de alma prostituta e viés nazista que se vende por bem menos.
Ao longe, como querendo estancar o mundo que não lhe parava de rodar, um velho bêbado, descalço, apoiava as duas mãos da parede enquanto urinava junto ao busto de algum poeta esquecido. Ou que talvez nem fosse um poeta.
Sentia dor infinita no meu peito. Não a dor física, que tanto consome meus dias e transtorna minhas noites. Era, outra vez, uma dor surda que volta a afligir esta alma calejada, mas que se recusa a ficar embrutecida e a capitular.
Tentei escrever versos. Tentei olhar uma réstia de luz da lua. Não há versos, nem lua na madrugada chuvosa de minha ilha suja e tão esquálida quanto o casal de adolescentes que dorme, em andrajos, abraçado, ao lado de um saco sujo de cola de sapateiro sob a marquise do casarão fedorento e em ruínas.
Absorto, com lágrimas finas misturadas às gotículas das águas grossas deste fim de inverno, nem vi a chegada dos primeiros raios de sol desta segunda-feira angustiada como meu coração. E, ainda com as lágrimas banhando a manhã de junho, voltei para casa.
Apesar da madrugada insone, sei que ainda tenho, no raiar de todos os dias, um compromisso inadiável com a vida. Até quando, não sei...

não tenho medo de sonhar.
quero a felicidade
com a ânsia indômita
de um adolescente.
quero a felicidade.
nem que seja para
num momento espesso
reconhecê-la na penumbra
descer com ela cordilheiras de vidro
gotejando lavas de brasa e mel
quero a felicidade
como a carta com lábios de batom
que repousa, sonhadora,
no colo de uma adolescente
quero-a, felicidade!
em versos, diversos
na métrica incerta
e rimas dispersas,
mas quero-a!
Eterna-mente...

Delírio, delícia, delito
Meu corpo, teu corpo
E esse gozo infinito
Minhas mãos, teu seio
Meu corpo, teu corpo
Falo e vulva no meio
Minha boca, tua boca
Meu corpo, teu corpo
E esse sexo louco
Teu corpo, tua boca
Tua vulva delira
sexo de mentira
a febre d’alma fere
e em espasmos
deliro. Delícia!
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